21 de Maio de 2019


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A GAGUEIRA NA INFÂNCIA

Silvia Friedman*

A gagueira na infância é uma manifestação que, como outras manifestações humanas, pode ser interpretada de diferentes maneiras. Do ponto de vista do senso comum, quando uma criança fala com repetições, prolongamentos e hesitações, que são as formas mais frequentes de gaguejar - como, por exemplo: “que que que quero sair mamãe”; “aooooonde estamos?”; “esse é o, o, o, o primeiro?” - geralmente, os pais e outras pessoas da família, assim como os professores, acreditam ser bom e recomendável chamar a atenção dela. Assim, solicitam-lhe que fale devagar, com calma, que pense e respire antes de falar, demonstrando acreditar, com essas reações negativas, que o gaguejar necessita de correção e que, consequentemente, essa não é uma forma desejável de expressão. As próprias crianças reagem negativamente à gagueira de outras crianças, rindo ou imitando, porque é bastante habitual em nossa cultura reagir dessa maneira diante de comportamentos que fogem dos padrões habituais.
Se essas condições se mantêm na vida de uma criança, com o passar do tempo os pais notarão que a gagueira não desaparece e inclusive aumenta, passando a adquirir outras características, como por exemplo, antes de dizer uma palavra, a criança permanecer por alguns segundos com a boca aberta sem emitir sons, deixar escapar ar, franzir a testa, apertar os lábios com força antes de palavras que começam com ”p, b, ou m” e, ainda, mover a cabeça para frente como para ajudar o som a sair. Assim, na lógica do senso comum, parece que há algo “travando” o mecanismo de fala, algo que supostamente está no seu organismo e que está piorando.
Outra forma de compreender esse mesmo conjunto de ocorrências vem da investigação científica, que pode nos mostrar um panorama bastante distinto do anterior, a partir de conhecimentos que ainda não são acessíveis ao senso comum. O ponto de partida dessa visão é a compreensão de que o ser humano é bastante complexo e, nessa condição, não podemos olhar para as suas manifestações, em particular para sua forma de falar, somente com base no funcionamento do organismo. Isso porque o desenvolvimento humano acontece a partir da integração ativa entre as dimensões orgânica, psicológica e social. Assim, os modos de ser de uma pessoa dependem das relações entre o meio sociocultural, com seus valores e significados, seu psiquismo e seu organismo.
Partindo desse ponto de vista, estudos em Linguística que se apóiam na observação dos modos de falar das pessoas nos mostram que as repetições, prolongamentos e hesitações são fenômenos comuns à fala de qualquer um de nós, em qualquer idade, sendo que eles variam em quantidade e intensidade conforme a situação de fala e os sentimentos do falante. Por exemplo: se sente medo de falar, se não domina o assunto, o falante poderá ter muitas repetições, prolongamentos e hesitações; ao contrário, se está confiante e alegre, poucas ou nenhuma.
Essas quebras ou lapsos, conforme nos ensina a pesquisa em Linguística, são relativos ao que se passa na subjetividade (mundo interior) enquanto estamos falando. São momentos em que não conseguimos nos lembrar de uma determinada palavra; em que procuramos palavras capazes de traduzir uma ideia ou um sentimento; em que acessamos simultaneamente duas palavras possíveis para dizer algo; em que sentimos alguma coisa perturbadora enquanto estamos falando e assim por diante. Esses momentos interiores são impossíveis de serem previstos ou evitados, e podem provocar um número também imprevisível de repetições, prolongamentos e hesitações. Se acompanharmos atentamente a fala de uma criança, ou de pessoas adultas, inclusive a nossa, perceberemos esse funcionamento.
Outro ponto importante a que chegamos a partir dos estudos linguísticos, e que depois vamos somar ao anterior, é a compreensão de que sabemos falar, mas, ao mesmo tempo, não sabemos como o fazemos. Ou seja, falar é uma ação automática e inconsciente. Quem fala se deixa deslizar por sequências de sons característicos de seu idioma, formando palavras, frases, sentenças e discursos, sem buscá-los ou organizá-los conscientemente. A atenção de quem fala não se direciona aos sons, ao modo de falar, mas ao sentido do que pretende dizer; assim, as palavras vão sendo emitidas de modo inconsciente. Se direcionamos a atenção aos sons, acabamos perdendo o sentido do que queríamos dizer, de forma semelhante a quando tentamos falar em um língua estrangeira que não dominamos bem. Ficamos inseguros em relação à pronúncia, não encontramos as palavras adequadas e ficamos “eh, eh, eh, eh...”, sem conseguir exprimir o que desejamos.

Vamos agora analisar o que pode resultar da combinação entre o que dissemos no início do texto, sobre os modos típicos do senso comum de reagir à gagueira, e as contribuições da Linguística.
Reagir à fala de uma criança com um pedido para que fale devagar, com calma, sem apontar-lhe concretamente em que palavra ou som está o erro ou inadequação, equivale a não aceitar seu modo natural e automático de falar. Há correções que frequente e necessariamente os adultos devem fazer aos modos de falar das crianças, como de palavras específicas que foram mal empregadas, mal pronunciadas ou de frases inadequadamente organizadas. Nessas correções, a criança fica sabendo onde está seu erro e o que se deseja que ela corrija. Então, pode fazê-lo. Ao contrário, ao dizer-lhe coisas como “fale devagar, fale com calma, respire antes de falar, pense antes de falar”, não se mostra a ela onde está o erro. É como se ele pudesse estar em toda a sua fala. Toda a sua fala está sendo recusada e tornada problemática, e, nessa condição, a criança não tem como saber em que lugar deve fazer uma correção.
Se esse tipo de comunicação se apresentar de maneira insistente na vida de uma criança, ela poderá começar temer sua maneira espontânea de falar. Consequentemente, como não sabe onde estará o erro e nem em que lugar aparecerá, passará a antecipar as palavras ou os sons em que ele pode ocorrer. Fará isso para tentar corrigi-lo.
Esse modo de funcionar antecipando os lugares em que a fala será problemática leva o falante a focalizar as palavras importantes do discurso, como por exemplo, na escola, o “presente” na hora da chamada, ou próprio nome, quando alguém o pergunta. Diante das palavras ou sons problematizados com antecedência, o falante se sente ameaçado pelo perigo do erro, da falha. Diante desse perigo, o corpo, os músculos reagem, bloqueando a passagem de ar ou tensionando as estruturas articulatórias para tentar conter a palavra ou “som perigoso”. Isso produz bloqueios e rupturas bizarras e corresponde a um modo problemático de falar, porque o falante age como se tivesse acesso ao funcionamento da fala. Para conseguir expressar-se dentro dessas condições, poderá também fazer movimentos com o corpo (com a cabeça, as mãos, os pés), com a intenção de ajudar a fala a sair.
Na perspectiva da Linguística podemos dizer que, nesse modo de funcionamento, a fala está alterada basicamente porque a criança sai do eixo do sentido do seu dizer para ficar presa ao eixo da forma do dizer. Neste eixo a palavra perde seu valor simbólico e passa a ter valor de “coisa”; o som deixa de estar encadeado aos outros sons que deslizam automática e inconscientemente e passa a constituir-se em um perigo iminente. Por isso, os músculos que em muitas outras ocasiões podem produzir um dado som, repentinamente, não o fazem mais. Essa tentativa se materializa por meio da antecipação de disfluências na cadeia dos significantes, o que mantém a atenção do falante na forma da fala, nas palavras e nos fonemas, que são entendidos como sendo perigosos (Azevedo e Freire, 2001). Por significar perigo para o organismo, a previsão do lugar das disfluências tem como efeito a produção de gestos articulatórios tensos que impedem a passagem do ar, travam a articulação ou produzem prolongamentos de sons. Isto, sem dúvida, impede a palavra ou som perigoso de sair, mas ao mesmo tempo, constitui o padrão de fala reconhecido como gagueira.
Essa estratégia tem o poder de aprisionar o falante, porque as tensões, que na verdade são seu efeito, criam a impressão de que a previsão era verdadeira, o que favorece novas previsões para continuar tentando impedir o aparecimento das disfluências (Friedman, 2004, 2009).
Dentro desse novo modo de funcionamento de fala, um gaguejar que era natural dá lugar ao que chamamos de gagueira sofrimento. Esse novo modo se caracteriza pela sensação de medo de falar espontaneamente, acompanhada de pensamentos que antecipam problemas para pronunciar aquilo que ainda não foi pronunciado. As antecipações, como vimos, são tentativas de solucionar o problema, mas, ao mesmo tempo, acabam provocando “travas”. Portanto, a articulação entre uma característica da fala (não saber como se fala) e a reação negativa dos outros (ou do próprio falante) às quebras típicas do falar caracteriza um modo de funcionamento subjetivo que leva à produção de uma fala tensa, com quebras, característica do modo gaguejado de falar.
Nesta nova maneira de funcionar na fala o número de trechos gaguejados aumenta, justamente, porque a gagueira é antecipada e isso produz tensões e bloqueios nos diversos gestos que produzem os sons. Essa maneira de funcionar depende dos sentimentos do falante em relação a si, às pessoas e às situações que o cercam; por isso, é típico que o falante que gagueja também fale sem gaguejar, conforme a hora e o lugar. Isto significa que o falante entra no funcionamento subjetivo típico da gagueira, mas pode sair dele se as circunstâncias internas (subjetivas) e externas (outro, meio social) lhe permitirem.
Diante de tudo isso, fica fácil entender que, ao escutar a fala gaguejada de uma criança, o importante é deixá-la continuar se expressando, sem criar as condições que irão levá-la à inútil tentativa de querer controlar sua fala. Para que isso seja efetivo, é preciso assumir a compreensão de que gaguejar não é perigoso, não é errado. É apenas parte integrante de uma fala que está se processando na subjetividade singular de uma pessoa que está tratando de dizer algo a alguém e, nesse processo, é afetada, no mínimo, pelos seus sentimentos em relação ao seu dizer, pelo domínio que tem do assunto e pelo que vê dos outros com quem fala. Tudo isso é passível de provocar, em algum grau, lapsos, hesitações, repetições e prolongamentos.

Referências


AZEVEDO, N.; FREIRE, R. Trajetórias de aprisionamento e silenciamento na língua: o sujeito, a gagueira e o outro. In: FRIEDMAN, S.; CUNHA, M. C. Gagueira e Subjetividade: possibilidades de tratamento. Porto Alegre: Artmed, 2001. p. 146-160.

DE LEMOS, C. Processos Metafóricos e Metonímicos: seu estatuto descritivo na aquisição da língua materna. São Paulo, 1999 (Mimeogr.)

FRIEDMAN, S. Gagueira Origem e Tratamento. São Paulo: Plexus, 2004.

___________. Fluência de Fala: Um acontecimento complexo, cap.47. In: DREUX, F. et al. (orgs) Tratado de Fonoaudiologia, 2º ed, São Paulo: Roca, 2009.

SCARPA, E.M. Ainda sobre o sujeito fluente. In: LIER-DEVITTO, M.F.; ARANTES, L. Aquisição, patologias e clínica de linguagem. São Paulo: PUCSP Educ, 2006.

Silvia Friedman é fonoaudióloga, docente da PUC - SP e doutora em Psicologia Social e responsável pelo site www.gagueiraonline.info.

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