4 de Setembro de 2010


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A GAGUEIRA NÃO TEM CURA*

Mito

Embora existam profissionais que considerem a gagueira uma patologia incurável, mas com controle, há quem sustente que ela tem cura sim.
A visão de que a gagueira não tem cura está apoiada na hipótese de que sua causa é orgânica. Com base nisso, cientistas têm investigado aspectos neurológicos e genéticos que possam explicá-la. Nenhuma pesquisa, entretanto, chegou, até o momento, a uma resposta conclusiva que demonstre de modo irrefutável o quê, no organismo, explica a gagueira.
Como existem outros modelos, além do orgânico, por meio dos quais o conhecimento científico pode ser construído, há quem pesquise como a gagueira se constitui a partir da “vida de relação”. Este tipo de pesquisa está apoiado na compreensão de que nossa vida em sociedade e as relações que estabelecemos com os outros podem imprimir marcas em circuitos neuronais, sem que o corpo tenha qualquer predisposição prévia para tal; marcas que influenciam o modo de ser da pessoa: seus pensamentos, sentimentos e ações.
As duas marcas que se revelaram nas pessoas com gagueira estão associadas entre si: uma imagem negativa de falante e um funcionamento discursivo desviante.
A imagem negativa de falante tem sua origem numa visão de senso comum que considera a fluência como sendo absoluta, ou seja, sem lapsos, pausas ou disfluências, e leva as pessoas (na família, na escola) a rejeitarem o padrão disfluente na fala infantil. Em decorrência disso, a criança passa a querer evitar ou esconder esse padrão, recorrendo à materialidade da língua. Ou seja, passa a supor em que lugar da frase estará a palavra disfluente, geralmente, a mais importante; por exemplo, se tem que dizer seu nome, suporá que é aí que ocorrerá a disfluência. E sendo a disfluência indesejada, essa suposição trava seus movimentos articulatórios para impedir a palavra de sair. A trava, por sua vez, faz parecer que, de fato, o falante sabia onde a disfluência ocorreria, o que perpetua a previsão. Com o tempo, ele cria novas estratégias para atingir a fluência; embora geralmente funcionem, elas também enchem a fala de comportamentos bizarros.
Com base nesse tipo de compreensão, que mostra o funcionamento subjetivo da gagueira, uma abordagem terapêutica que construa um novo sentido para a imagem de falante de uma pessoa gaga e modifique o funcionamento subjetivo aqui descrito tem demonstrado ser eficaz para curá-la.

Vale a dica: A rejeição à fala da criança disfluente frequentemente se materializa por frases do tipo “calma, pense antes de falar, respire”, que em nada ajudam a criança a falar sem disfluir, mas fazem com que entenda que não falou adequadamente; que o modo como fala desagrada. Assim, se você conhece uma criança ou pessoa que seja disfluente, não a interrompa, nem antecipe suas falas, nem peça para ter calma ou respirar melhor. Mantenha-se atento ao diálogo, respondendo ao que ela tem a lhe dizer, porque quem diz algo quer resposta a isso, e não ao seu modo de falar.

*Por Silvia Friedman, fonoaudióloga, docente da PUC-SP, doutora em Psicologia Social e responsável pelo site www.gagueiraonline.info.


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