3 de Abril de 2020


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A que servem os novos estudos do cérebro?

Claudia Perrotta e Lucia Masini

Vamos comentar aqui dois estudos do cérebro recentemente publicados no meio científico, em Londres e EUA. O primeiro afirma que a revolução digital remodela o funcionamento do cérebro, e o segundo, que a puberdade atrapalha o aprendizado, propondo então uma droga para a cura do “problema”.

Estudo 1: Revolução digital remodela funcionamento do cérebro
Noticiado pela internet
(confira), esse estudo da University College de Londres é, sem dúvida, bastante questionável. Como boa parte desse tipo de pesquisa, uma série de fatores parece não ter sido contemplada. Quem seriam os 100 sujeitos voluntários que tiveram seus cérebros investigados? Qual a origem, a história de vida, a formação cultural, em que contexto social se encontram? Teria essa amostra um número suficiente para conclusões tão assertivas/definitivas?
Bem, na verdade, estamos aqui propagando uma informação veiculada na internet, que tem a tendência de simplificar os conteúdos. Talvez a pesquisa não tenha incorrido em equívocos tão básicos... Mas ainda que tenha, não deixa de tocar em questões que merecem atenção.
Uma delas diz respeito à desenvoltura com que os mais jovens vasculham a internet em busca de informações, pulando de um site a outro sem dedicar muito tempo aos assuntos abordados. Segundo os estudiosos ingleses, isso seria indicativo de uma remodelagem cerebral que já acomete a nova geração, conclusão que acaba levando muitos a suporem que seria essa a causa de certa aversão aos livros de forma geral, e em especial àqueles com maior número de páginas.
Nem precisaríamos de uma pesquisa nesses moldes para concluir que grandes mudanças na maneira de ser e estar no mundo estão em curso, obviamente muitas delas determinadas pelas novas tecnologias de comunicação das quais nos tornamos, cada vez mais, consumidores vorazes. Que isso afeta nossos circuitos cerebrais também não chega a ser uma novidade. E que os mais jovens cada vez leem menos ou procuram textos mais curtos, deixando para trás os clássicos da literatura, também é preocupação constante de pais, educadores, tendo sido, inclusive, abordada recentemente pelo jornalista Daniel Piza em seu blog
O problema é fazer um pacote de tudo isso e, apressadamente, traçar relações de causa e efeito simplistas.
Vamos por partes.
É fato que as crianças lidam com instrumentos da nova tecnologia cada vez com mais facilidade. Não há família em que não haja, ao menos, uma que explique com desenvoltura o funcionamento de um novo aparelho eletrônico. Do celular ao laptop, lançam-se a desvendar seus mecanismos, sem medo de ousar. Arriscamos afirmar que a ausência de medo e, por que não dizer, a potência em aprender a lidar com esses aparelhos estão relacionadas às situações em que elas se encontram ao utilizá-los, que são, na maioria das vezes, bem sucedidas.
Em primeiro lugar, os adultos atribuem às crianças um papel social de destaque no uso dessa tecnologia. A relação de aprendizagem aparece, muitas vezes, invertida. É a criança que ensina, que tem o seu dizer valorizado pelo adulto. Essa parceria assim definida influencia positivamente na relação que ela estabelece com esse conhecimento, fazendo com que se aproxime cada vez mais dele.
Outro fator relevante é o fato de a criança ter seus objetivos mais imediatamente atingidos nessas situações, ainda que seus conhecimentos prévios sejam parciais. Vejamos, como exemplo, o uso do computador. Ainda que não tenha domínio da leitura e da escrita, a criança faz uso do que já sabe e também de outros recursos para atingir o que quer. Com muita facilidade, aprende como acessar os programas desejados na internet e, na hora de digitar, vê na cópia um recurso adequado. A aplicação de seus conhecimentos a leva a assistir vídeos, a jogar novos e diferentes games, a acompanhar seriados, campeonatos e a se comunicar com outras pessoas. Coisas que ela não conseguiria se dependesse apenas da leitura e da escrita em outro meio que não fosse o digital.
Talvez estejamos diante de um fenômeno, ainda em formação, que pode trazer consequências para a educação formal das crianças: a tendência de os mais jovens desenvolverem mais rápida e substancialmente seu letramento digital em detrimento de outros como, por exemplo, o escolar. Nesta perspectiva, talvez o mais importante não seja avaliar se o uso do computador está ou não remodelando o cérebro. Importante é constatar que as situações letradas em que há seu uso acabam sim por exigir determinadas posturas, habilidades e capacidades não exigidas ou favoráveis em outros contextos. Querer que um estudante iniciante, dentro do contexto escolar, leia um livro de x páginas, sem que isso tenha um sentido para ele, não é algo que se exija a priori. Isto será fruto de um trabalho, bem feito, na esfera escolar, que leve em consideração, inclusive, as capacidades dos aprendizes desenvolvidas em outros contextos.
Para os educadores, fica o dilema: como fazer com que os métodos de ensino correspondam um pouco mais a esse ritmo que vai sendo imposto na atualidade, mas sem perder a densidade necessária para formar pessoas com senso crítico, capazes justamente de lidar com esse bombardeio de informações?

Estudo 2: Puberdade atrapalha o aprendizado, e cientistas propõem droga para curar o “problema”
Também neste estudo há muito a ser questionado em termos de procedimentos: o mecanismo celular que, segundo conclusão dos cientistas, afetaria a capacidade de aprender dos adolescentes, até o momento, só foi demonstrado em camundongos teens, os quais teriam sido submetidos a “atividades de aprendizado”.
Mickey Mouse e, mais recentemente, o simpático ratinho do filme Ratatouille, Remy, são de fato referências fundamentais para compreendermos o comportamento humano... talvez porque, a exemplo das fábulas, tenham sido justamente humanizados por seus criadores. Bem, no caso desta pesquisa, temos o contraponto disso: adolescentes humanos tratados como roedores! Quais teriam sido as atividades de aprendizado propostas aos ratinhos de laboratório? Qual a concepção que esses cientistas têm sobre o ato de aprender? Talvez tenham avaliado a capacidade de descobrir o mecanismo de funcionamento de uma ratoeira...
Mas, segundo a reportagem (Folha de S. Paulo, 19/03/2010), esses estudiosos americanos “já sabiam” que “a puberdade afeta a capacidade de aprender”, prejudicando a memória linguística, o que leva a concluir que só até 10/12 anos é possível ensinar coisas básicas às crianças. Talvez algo como abrir a lata de biscoitos para conseguir um queijinho, ou melhor, um biscoitinho...
Como resolver o “problema”? Simples: com uma dose extra do hormônio ligado ao estresse e à motivação (THP), aplicada no hipocampo dos “animais”. Assim, nossos adolescentes selvagens voltariam a “aprender bem” e todos poderiam comemorar, felizes: pais, professores e, claro, a indústria farmacêutica!
Mas, para alívio, ainda que parcial, a própria cientista que encabeça a pesquisa discorda da ideia de que “a puberdade seja um ‘problema’ que requer ser tratado”. Podemos então respirar aliviados? Sua descoberta foi só uma brincadeira de laboratório que, no máximo, vai causar protestos indignados de alguma sociedade protetora de animais, preocupada com a ética entre roedores? Infelizmente não: a investigação continua
"Não seria uma boa ideia tratar crianças ou adolescentes em geral com uma droga assim, mas algumas crianças têm mais dificuldade de aprender, e nelas o deficit de aprendizagem da puberdade é pior. O ideal seria desenvolver uma droga mais seletiva." Vejam: crianças com “dificuldades de aprender”, para essa cientista, fatalmente, pioram na adolescência. Não há como escapar.
Sejamos justos, porém, com a pesquisadora. Questionada sobre a possibilidade de a nova droga ser tão controversa quanto a ritalina – droga da obediência hoje receitada sem escrúpulos, ela criticou essa conduta dos colegas, advertindo que o resultado de sua investigação não se aplica aos adolescentes normais...
Como dissemos, inúmeros são os questionamentos que põem em evidência a validade desse tipo de investigação. Quais os parâmetros para definir normalidade? Qual a situação de aprendizagem a que as cobaias, humanas ou não, são “submetidas” durante as testagens? Contexto sociocultural, história de vida e inúmeras outras variáveis que determinam modos particulares de apreensão de conhecimentos mais uma vez são desprezados em prol de uma suposta neutralidade científica. O que os pesquisadores se esquecem é que também eles avaliam suas cobaias a partir de parâmetros, ideologias, modos de pensar social e historicamente determinados, posicionamentos políticos e éticos. Não há, pois, neutralidade, em especial quando o tema é aprendizagem humana, com toda sua riqueza e complexidade.
Ambas as pesquisas nos remetem a essa temática e às formas como a sociedade contemporânea tem, cada vez mais, solapado essa complexidade.
Um dos sinais de que não estamos sabendo responder às novas formas como crianças e adolescentes se envolvem em situações de aprendizagem é, justamente, a proliferação do diagnóstico de transtorno do déficit de atenção e hiperatividade – TDAH, já abordada aqui no site (cf. nas seções mito ou verdade e reflexões, aba profissional).
Será que a “perda da capacidade de atenção” que caracteriza esse quadro clínico pode ser, na atualidade, considerada uma “doença neurológica”? Se o cérebro dos mais jovens já está sendo afetado pelas novas demandas sociais é difícil dizer - serão necessárias muitas outras pesquisas, mais consistentes. Mas não há como negar que, como já ressaltamos, desde cedo, as crianças estão sendo solicitadas a participar de situações sociais dinâmicas, recheadas de sons, imagens, discursos apresentados simultaneamente. É quase impossível não corresponder a esses estímulos!
Ambas as pesquisas, com todos os seus equívocos e inconsistências, podem então servir como um alerta: precisamos prestar atenção ao fato de que não há esse número absurdo de desviantes, de crianças e adolescentes doentes como muitos especialistas e mesmo educadores têm propagado.
Antes de distribuirmos diagnósticos que tem levado à medicalização da infância e adolescência (cf. http://blogdaroselysayao.blog.uol.com.br/), com remédios como Ritalina sendo prescritos sem pudores e sem uma avaliação criteriosa e ponderação sobre os riscos que trazem, prestemos atenção ao papel que nós, os mais velhos, temos desempenhado na contemporaneidade.
O que temos feito, dentro e fora da escola, para que diferentes situações que envolvem aprendizado sejam significativas para os jovens? Que ambiente e cuidados temos lhes ofertado? Estamos conseguindo acompanhá-los e sustentá-los em suas angústias e questões, próprias de cada momento do processo de amadurecimento pessoal?
No caso dos adolescentes, as tão propagadas crises não podem ser vistas como patológicas e, portanto, não devem ser “curadas” – sem elas, algo significativo se perde, e não só para meninos e meninas. Para nós adultos também. Buscar medicamentos para torná-los obedientes significa um empobrecimento também de nossas possibilidades de transformação. Quem vai apontar nossas falhas, questionar nossas ações, cobrar a autenticidade de nossos gestos e palavras? E mais: com quem vamos nos confrontar?
Todos nós, familiares, educadores, terapeutas necessitamos desse rico e conflituoso convívio com adolescentes desafiadores, intransigentes, precisamos sinalizar disposição para esse confronto com a autoridade que representamos, sem perder de vista a empatia e abrindo campo para que possam contribuir, genuinamente, para a reinvenção do futuro.

Leia também uma reflexão sobre o tema de Contardo Calligaris em seu blog.


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