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17/11/2011 Lucia Masini, Claudia Perrotta, Jason Gomes Anormalidade universal ou normalidade diversificada?
A Revista Veja, na publicação de 24 de novembro, traz uma matéria sobre o que é ser normal. Nela, argumenta que os avanços tecnológicos da medicina diagnóstica nos tem revelado, por exemplo, aspectos do funcionamento cerebral antes impossíveis de serem comprovados. O mais interessante deles é o de se constatar que as atividades que uma pessoa realiza na sua vida determinam não só a maior ou menor atividade cerebral como também a estrutura física do seu cérebro. Isso mesmo: não só o funcionamento das ondas cerebrais é diferente, como o tamanho e forma do órgão. Dessa evidência surge, nos meios clínicos e também acadêmicos, uma polêmica: o que é, então, ser normal? Uma pesquisa realizada pelo Douglas Mental Health University Institute, nos EUA, descobriu que a vida urbana causa um impacto no cérebro: crescer numa metrópole afeta a região que regula o stress (o córtex cingulado), aumentando em 21% o risco de ansiedade e em 39% o transtorno de humor. Ser morador de São Paulo, por exemplo, e ter ansiedade e variações no humor seria sinal de anormalidade ou normalidade? A matéria avança pondo em cheque alguns diagnósticos psiquiátricos e conclui que vivemos uma lenta e profunda revolução em curso para a aceitação de uma “anormalidade universal”. Se, por um lado, admite que isso pode aumentar a discriminação de grupos cada vez mais minuciosamente distintos, entende que, por outro, também pode levar a um tempo de flexibilidade, empatia e tolerância às diferenças humanas.
Preferimos ficar com a segunda opção e, desta forma, preferimos também entender e afirmar que, em lugar de uma era de “anormalidade universal”, estamos entrando em um tempo de “normalidade diversificada”. Se são as ações humanas, o ambiente, as condições sociais e as relações interpessoais que determinam, inclusive, os funcionamentos cerebrais, porque não entender os sintomas que observamos em nossos pacientes dentro desta ótica? Somente nesta perspectiva é que flexibilidade, empatia e tolerância podem passar de conceitos abstratos a ações humanas cotidianas tão necessárias nesses tempos de disputas por um saber hegemônico.
Foi nesta perspectiva que participamos, neste ano de 2011, de várias ações do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade.
Em outubro, no I Congresso Internacional de Saúde Mental: A Medicalização da Vida, em Irati, Jason Gomes participou da mesa “A educação medicalizada: o que a fonoaudiologia e a psicologia têm a dizer?”, realizado na UNICETRO.
Em novembro, no II Seminário Internacional - A Educação Medicalizada: Dislexia, TDAH e Outros Supostos Transtornos, realizado na UNIP, Lucia Masini participou da mesa “Uma nova criança exige uma nova escola”. Nesse mesmo evento, Lucia Masini e Claudia Perrotta ministraram o mini-curso: “A criança e a construção da escrita: de que modos a criança aprende a ler e a escrever”.
Ainda em novembro, no I Simpósio Medicalização da Vida: novas capturas, antigos diagnósticos na era dos transtornos, realizado na UERJ, Claudia Perrotta participou da mesa: “Práticas substitutivas à medicalização”.
Em todos esses eventos, compartilhamos concepções e práticas fonoaudiológicas que possibilitam, justamente, o enfrentamento dessa lógica medicalizante/patologizante, partindo de outro paradigma. Trata-se do que denominamos campo de experimentação da linguagem, em que reapresentamos esse objeto cultural às crianças, aos adolescentes e adultos que nos procuram, de modo que possam se sentir capazes de dele se apropriar criativamente, usá-lo como possibilidade de expressão. Buscamos acolher o sujeito que fala e que escreve do modo como lhe é possível no momento, contemplando a singularidade de cada um, criando uma comunidade de destino para suas produções e oferecendo um ambiente facilitador para possíveis transformações e aperfeiçoamentos dentro do processo de amadurecimento pessoal. Estabelecemos parcerias saudáveis, enriquecedoras e potencializadoras, trabalhos que temos realizado criteriosamente, embasados em princípios de ética e respeito pelo outro e que, no próximo ano, continuaremos a abordar aqui, no Ifono.
Desejamos a todos que têm nos acompanhado um ótimo Natal e um 2012 ainda melhor!
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