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02/09/2010 Claudia Perrotta Até quando a preocupação com a educação vai ficar só no discurso?
No mês de julho, o jornal Folha de S. Paulo divulgou uma pesquisa pra lá de preocupante. Neurologistas do Hospital das Clínicas aplicaram um teste escrito em 312 adultos alfabetizados, de diferentes idades e níveis de escolaridade, todos acompanhantes de pacientes. As questões eram bem simples e escritas com letra bastão.
Um exemplo:
"Dado 1: o remédio deve ser tomado uma hora antes do almoço. Dado 2: o almoço é às 12h. Pergunta: a que hora você deve tomar o remédio?"
Das pessoas que responderam, 23,5% não entenderam perguntas como essa, sendo que, dentre as menos escolarizadas (até sete anos de estudos), o índice atingiu quase 60%.
Trata-se do analfabetismo funcional, que, segundo dados da reportagem, também está presente entre aqueles que cursaram o ensino médio: 14% dos que frequentaram a escola de 8 a 11 anos.
Ou seja: a pessoa consegue decodificar o que está escrito, mas não ler efetivamente, que é compreender, atribuir significado. No caso das receitas médicas, uma boa parte dos pacientes, por exemplo, corre o risco de tomar o remédio na hora errada:
“Quando o paciente diz que lê e escreve, o médico explica uma vez, dá a receita e pronto. Não imagina que é analfabeto funcional", afirma o neurologista responsável pelo estudo.
Diante desses resultados, os médicos vêm criando “táticas”; assim, em vez de escreverem nas receitas "tomar um comprimido de manhã e outro à noite", simplificam para: "2 por dia", pois, segundo eles, é mais fácil entender os números...
Mas essas táticas nada mais são do que paliativos – podem ajudar a resolver um problema imediato da área de saúde, pontual e urgente. São válidas, mas, obviamente, não atingem o ponto central do problema.
Ainda na reportagem, a professora de metodologia da alfabetização da Unesp, Onaide Schwartz, adverte: a escola brasileira não consegue alfabetizar plenamente - "O professor não usa jornal, letra de música ou panfleto de supermercado. A criança acha que a leitura não é da vida real, que é só uma atividade escolar”.
Essa é, de fato, a questão: a linguagem escrita, no geral, continua a ser apresentada no contexto escolar através de exercícios exaustivos, treinos descontextualizados, sempre muito distante de seus usos sociais e cotidianos. Também o tempo de experimentação, de brincar com as letras, palavras vai sendo cada vez mais abreviado, dando lugar à imposição de padrões de apreensão de conteúdos. Ainda prevalecem, tanto na escola pública como privada, práticas em que a escrita aparece como imutável, sem vivacidade, algo já acabado, pronto para ser adquirido, sem questionamentos. Massa dura, impenetrável, os alunos não vislumbram a possibilidade de nela imprimir aspectos de si, banhá-la de subjetividade. Com isso, afastam-se muito cedo de situações letradas e acabam perdendo a possibilidade de se apropriarem desse objeto cultural, para, a partir dele, construir conhecimentos, criar sentidos, atribuir significados, e até mesmo compreender informações básicas, como as que apareceram na pesquisa do HC.
A preocupação com a educação não pode ser apenas discurso de candidato a cargo eletivo. Todo governante eleito, seja do âmbito federal, estadual ou municipal, deve ir além de seus slogans de campanha. "Educação para todos" precisa, com urgência, ganhar o significado de efetiva aprendizagem para pleno exercício da cidadania. E isso requer, indiscutivelmente, uma análise profunda do ensino da linguagem escrita no país. Será que ele passa no teste do HC?
Em tempo: segundo site da UNESCO (www.unesco.org), no dia 31 de agosto, entidades ligadas à educação entregaram aos principais candidatos à eleição deste ano uma carta-compromisso contendo os desafios e compromissos prioritários para garantir uma educação de qualidade a todos os cidadãos brasileiros. Vamos acompanhar... e cobrar!
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