23 de Outubro de 2019


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Capacidades leitoras e diferentes leituras

LUCIA MASINI

Temos assumido aqui, em diferentes seções e textos, que ler é fundamental. Ler para si, para o outro, com o outro, ler por prazer, por necessidade, ler para ter sono, para ter companhia, para ter idéias.
Ler é uma atividade que deve ser incorporada no cotidiano das pessoas, mas sem pressa ou pressão. E este tem sido um dos maiores dilemas educacionais tanto de professores quanto de pais de crianças e adolescentes: como estimulá-los a ler?
Em seu livro Sobre a Leitura, Proust afirma que uma experiência saudável de ler passa pela existência de práticas salutares na vida cotidiana e revela que sua maior lembrança de leitura na infância não é propriamente um livro ou uma história. É antes a cena em que ela se deu: sentado em sua poltrona preferida, posicionada perto de uma janela, pela qual via a chuva lá fora.
Alguém poderia achar frustrante esta declaração de Proust, esperando que ele discorresse sobre os tantos livros lidos ao longo de sua vida. Mas o que o escritor francês nos alerta com esta afirmação é que o ambiente deve ser acolhedor para quem lê.
E este é o primeiro e, talvez, o mais importante aspecto para a formação de leitores.
Seja em casa ou na escola, a leitura precisa ter um sentido que vá além da aprendizagem formal de um código. Precisa ter sentido inclusive para que essa aprendizagem aconteça já que é, para o leitor iniciante, uma tarefa difícil e cansativa. Assim, para que o aprendiz se enverede no campo da decodificação das letras é preciso que o objetivo não seja apenas a aprendizagem desse código.
E por que uma criança que ainda não sabe ler se interessaria pela leitura? Inúmeras são as razões, invariavelmente relacionadas aos contextos em que ela está inserida, o que imprime a esse processo um caráter singular. Um aspecto, no entanto, deve ser comum a todos os processos: a necessidade e importância de muita leitura partilhada. Parceiros mais experientes podem e devem ler para as crianças textos que lhe sejam significativos. E as diferentes posturas da criança frente à leitura devem ser observadas e respeitadas, se queremos aproximá-las desse novo conhecimento. Quais são as histórias de sua preferência? Quais as que ela gosta apenas de ouvir? Quais ela gosta de participar da leitura, lendo partes que já sabe de cor ou que reconhece algumas letras? Em quais ela se antecipa prevendo o próximo passo? E, ainda, em quais ela se lembra de partes de outra história, fazendo uma mistura de ambas? Por vezes, essas atitudes infantis são consideradas dispersivas e consequentemente reprimidas, mas são todas muito saudáveis e devem ser incentivadas.
Tudo isso porque, para aprender a ler com propriedade, o leitor precisa desenvolver outras capacidades leitoras além da decodificação. Segundo Rojo (2004), são três as categorias de capacidades que um leitor precisa desenvolver: a de decodificação; a de compreensão e a de apreciação e réplica.
A capacidade de decodificação implica conhecer as letras e as características de uma escrita alfabética; reconhecer globalmente as palavras; ampliar a visada garantindo a decodificação de blocos. É o momento das brincadeiras com as palavras, dos jogos que contenham letras, da escrita de letras de várias formas, tamanhos e texturas, da escrita dos nomes da família, dos amigos, dos bichos preferidos. Também é o momento de leitura dos livros de histórias curtas, alguns previsíveis na estrutura do texto para que a criança se sinta confiante, vivendo situações bem sucedidas de leitura. Não é momento de cobrança ou formalização, mas sim de apresentação deste novo conhecimento.
A capacidade de compreensão diz respeito às estratégias a que o leitor recorre na abordagem de um texto: as hipóteses que levanta sobre o tema a partir da leitura do título ou da observação das gravuras; a ativação de seu conhecimento prévio; o levantamento e a checagem das hipóteses; localização, comparação e generalização das informações. Somam-se a isso a busca de compreensão de uma palavra pelo contexto em que se insere e a relação com o conhecimento de mundo e outros textos. Aqui, o leitor mais experiente lê histórias para a criança, chamando-a a participar da leitura. O que o título sugere? Em que outra história conhecida o personagem recorre ao mesmo artifício para conseguir seu objetivo? O que a criança faria no lugar do personagem? Contos de fada são bem-vindos porque possuem elementos que se repetem em histórias diferentes. Isso facilita o trabalho de intertextualidade, imprescindível para uma leitura efetiva. E a criança desde cedo vai entendendo que ler é também relacionar fatos, ideias, conhecimentos.
Já a capacidade de apreciação e réplica se refere a um nível mais elaborado de leitura: um momento em que o leitor dialoga com o texto lido. Para tal, é necessário que o leitor recupere as condições de produção do texto. Em que momento histórico o autor o escreveu, com qual finalidade, em que veículo e esfera de atividade humana circulou, são algumas das perguntas que recuperam o contexto de produção e auxiliam o leitor a compreender melhor os sentidos do texto. Neste nível de leitura, o leitor também estipula metas em relação a ela: a definição do objetivo determina a apreciação que pode ser ética, política, estética ou afetiva. Em outras palavras, é o objetivo da leitura que vai nos permitir apenas gostar ou não do texto lido ou desenvolver uma crítica e uma réplica em relação à posição assumida pelo autor. Aqui, podem entrar a leitura das regras para aprender a jogar um jogo novo ou a leitura de reportagens do suplemento infantil de um jornal em que é possível e esperado que se tome uma posição.
Uma leitura partilhada, em que o diálogo esteja presente, proporciona o trabalho com todas essas capacidades, que não é linear nem hierárquico. Em qualquer momento, uma ou mais podem ser mais ou menos ativadas. Trazer a criança para esse diálogo e acolher suas posições, é sim auxiliá-la na aprendizagem da leitura, ainda que o adulto leia o texto para ela. É fundamental que não se confunda formação (do leitor) com formalização (da leitura). Brincar com a criança de tentar adivinhar a sequência da história, mudar-lhe o final, lembrar de outras histórias que usam o mesmo recurso narrativo, juntar personagens diversos, perguntar o que a criança faria no lugar de um deles, brincar com as letras em jogos como: cruzadinhas, caça-palavras, jogos de tabuleiro ou de computador que focam o mecanismo básico da escrita são estratégias perfeitamente possíveis de se fazer com qualquer criança que já demonstre atenção e interesse em acompanhar uma leitura.
Ler é fundamentalmente compreender um texto, relacionando-o com outros conhecimentos e incorporando-o ao seu repertório cultural.
Se soubermos diversificar a oferta de situações e de materiais escritos, entender e acolher as múltiplas relações que nossas crianças estabelecem com esses materiais, estaremos contribuindo para a formação de leitores mais capazes, mais potentes e consequentemente cidadãos mais autônomos e criativos.


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