25/11/2010 da equipe Educação Medicalizada: que sociedade queremos afinal?
Nesta semana, a Folha de S.Paulo publicou reportagem sobre o I Seminário Internacional A Educação Medicalizada: Dislexia, TDAH e outros supostos transtornos. O evento foi organizado por entidades como CRP/SP, Sedes Sapientiae, UNIP, Pediatria da UNICAMP, Grupo Queixa Escolar, nossa associação Palavra Criativa – IFONO, entre outras. O evento contou com a presença de diversos especialistas do Brasil e do exterior, sendo o ponto central dos debates a medicalização da sociedade e, mais especificamente, das dificuldades de aprendizagem escolar.
Foram oferecidos subsídios para a discussão e o posicionamento frente às políticas públicas que têm sido propostas por meio de leis e de programas de ação. Um dos convidados estrangeiros, o neurologista Steven Strauss, fez duras críticas à medicalização da educação, afirmando que são tantas as variáveis do processo de alfabetização de uma criança que seria perigoso resumi-las em uma só. Além disso, “não há nenhuma prova fisiológica, neurológica ou física que associe direta ou indiretamente TDAH a crianças com dificuldades de ler e escrever, outras questões devem ser consideradas nestes casos”.
Também a pediatra Maria Aparecida Moysés alertou para o equívoco nos estudos estatísticos que estão sendo realizados na área, segundo os quais de 10 a 15% da população brasileira sofre de dislexia. “Em saúde, nós não lidamos com porcentagem. Quando falamos de porcentagem é para desnutriçao, verminoses, que são problemas sociais. Quando se fala em doenças biológicas, falamos em 1 para 100mil, 1 para 1 milhão - 10% é assustador, 20% é uma epidemia, uma epidemia de incapacidades. Realmente está sendo exagerado, muito exagerado” (Confira a entrevista mais abaixo).
A Fonoaudiologia também se fez presente nesse importante debate: Rejane Barbosa Rubino, da DERDC/PUCSP, ministrou o mini-curso: Dislexia: questionamentos para a Educação. Os problemas e as controvérsias que cercam a categoria diagnóstica dislexia foram examinados e debatidos.
E nosso grupo do IFONO, além de contribuir com a organização do evento, coordenou a Oficina de Escrita - um momento bastante rico em que pudemos apresentar outras formas de abordagem da linguagem escrita, trabalhando com capacidades leitoras e escritoras e questionando as avaliações tradicionais, que acabam levando a diagnósticos e tratamentos equivocados em casos de dificuldades para ler e escrever.
O evento foi palco também para o lançamento oficial do Fórum Sobre Medicalização da Educação e da Sociedade. De caráter político e de atuação permanente, o Fórum tem por finalidade articular entidades, grupos e pessoas para o enfrentamento e a superação do fenômeno da medicalização, bem como mobilizar a sociedade para a crítica à medicalização da aprendizagem e do comportamento. Para tanto foi produzido um manifesto, com as diretrizes do Fórum, que convida pessoas e entidades a serem signatários desta mobilização.
Durante a mesa-redonda “Medicalização e Políticas Públicas”, o vereador Eliseu Gabriel, representando a Câmara Municipal de São Paulo, anunciou um projeto de lei, de sua autoria, instituindo 11 de novembro como o Dia Municipal de Luta contra a Medicalização na Educação.
Um público em torno de mil pessoas compareceu ao encontro. Para aprimorar as discussões, o Seminário ofereceu aos participantes conferências, mesas-redondas, minicursos, oficinas e exposição de vídeos e de trabalhos em painéis (85 trabalhos foram selecionados), além de performances artísticas. Também foi lançado o livro Medicalização de Crianças e Adolescentes. Conflitos silenciados pela redução de questões sociais a doenças de indivíduos, organizado pelo Conselho Regional de Psicologia de São Paulo e pelo Grupo Interinstitucional Queixa Escolar. É a primeira publicação do gênero no Brasil, e também conta com a colaboração de fonoaudiólogas, entre elas Claudia Perrotta.
É fundamental que todos nós nos posicionemos frente a este tema. Divulgue em suas listas, compartilhe e discuta. Para conhecer o manifesto de lançamento do fóum sobre medicalização da educação e da sociedade,
acesse aqui.
Já contamos com a adesão de 27 entidades e com 450 assinaturas de participantes do Seminário.
Assista a entrevista com a pediatra Maria Aparecida Moysés