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29/04/2010 Lucia Masini Filme: As Melhores Coisas do Mundo
Laís Bodansky
Fazer um filme sobre adolescentes não é fácil. Fazer um filme sobre adolescentes para adolescentes não é nada fácil, porque eles costumam ser arredios e desconfiados quando são o centro das atenções. Fazer um filme sobre adolescentes para adolescentes e adultos assistirem é tarefa quase impossível, porque geralmente se a linguagem serve para um, muito provavelmente não vai agradar o outro público. Mas, Laís Bodansky, diretora dos consagrados Bicho de Sete Cabeças e Chega de Saudade, conseguiu esta façanha com graça, realismo e emoção.
As melhores coisas do mundo é um retrato fiel da vida de adolescentes de classe média paulistana, onde o filme é ambientado. Pode, no entanto, representar o jovem de qualquer parte do mundo, pois trata de temas característicos a essa complexa fase do ser humano. Crises familiares, pressão social em relação à sexualidade, fim do primeiro namoro sério, bulling, decepções com os amigos, dúvidas em relação ao futuro são alguns dos temas abordados na velocidade e profundidade próprias da contemporaneidade.
Mano, apelido de Hermano, um garoto de quinze anos, é o fio condutor da história. Partilhando de seus pensamentos, ao longo do filme, vemos uma garotada às voltas com conflitos que, sob a ótica juvenil, assumem proporções exageradas. “O que é que você entende da vida?” pergunta sua mãe quando ele se rebela contra o pai, por ter saído de casa para viver uma paixão. Na hora, Mano se cala, pois talvez não a entenda de fato. Mas não foge da tarefa de enfrentar seus medos e anseios em entender sua vida, que ele define como sendo um grande paradoxo.
Não fosse a presença de Denise Fraga, José Carlos Machado, Paulo Vilhena e Caio Blat no elenco, muito facilmente pensaríamos estar diante de adolescentes em suas situações cotidianas reais, tamanha a naturalidade com que os jovens atores circulam nas cenas.
Tal feito deve-se ao trabalho do roteirista, que não se contentou apenas em adaptar para a tela os livros da série Mano, escritos por Gilberto Dimenstein e Heloisa Prieto. Luiz Bolognesi convocou adolescentes para ajudá-lo a escrever os diálogos e as situações escolares. O resultado é impressionantemente natural: o público adolescente se identifica e o adulto reconhece ali seu filho, sobrinho ou neto.
Vale ressaltar o destaque dado às formas de comunicação e expressão dos adolescentes. Engana-se o adulto que diz que a juventude de hoje não mais lê ou escreve. O filme nos mostra o quanto ela faz uso cotidiano da leitura e da escrita, sendo fundamental compreendermos quais as situações letradas que lhe são mais significativas.
Embora o bom e velho diário sobreviva, guardando o registro das inquietações de uma jovem, certamente, o celular e a internet encabeçam a lista dos meios em que mais circulam a palavra do jovem. E é bom que ninguém menospreze o seu poder de grandes aliados e vilões na adolescência contemporânea. Ao mesmo tempo em que disseminam uma fofoca, caracterizando o ciberbulling, tão bem marcado na trama, salvam a vida daquele que não sente ter interlocutores à sua volta.
O que fica evidente, e talvez seja a grande mensagem do filme, é a necessidade de os jovens se manterem abertos ao diálogo com a vida, ainda que com irreverência e mais discordâncias que concordâncias. Aos adultos cabe a delicada tarefa de deles se aproximarem com a familiaridade de quem também já foi jovem um dia, mas principalmente com disposição para descobrir e aprender com o outro sempre novo.
E, afinal, quais são as melhores coisas do mundo? Assista ao filme e tire suas próprias conclusões.
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