4 de Agosto de 2020


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Fonoaudiologia e Educação em tempos de inclusão social

Apresentação oral – XV Congresso Internacional de Fonoaudiologia, 2007
Lucia Masini

"Você quer que eu leia ou você sabe ler?”
(Professora do curso de Psicologia, dirigindo-se à sua aluna do terceiro período, na disciplina Desenvolvimento Infantil)

A Fonoaudiologia tem tarefa urgente e delicada, pois a exclusão e a violência pela linguagem oral e/ou escrita são muitas vezes sutis e dissimuladas. Já discutimos esta questão em outro texto, nesta mesma seção, mais voltada para a violência contra a criança (O bendito choro de Maísa). Agora, vamos discutir a questão da inclusão social em instituições educacionais.
Mais que prevenção dos problemas de linguagem, a Fonoaudiologia nestas instituições tem a possibilidade e o dever de auxiliá-las na compreensão da dinâmica de vida de portadores de necessidades especiais.
São propósitos da inclusão social:
• Tornar a sociedade espaço de convivência entre todas as pessoas, quaisquer que sejam suas capacidades, necessidades, potencialidades;
• Todas devem ter seus direitos assegurados em relação à educação formal, saúde, trabalho e lazer, e as instituições devem estar preparadas para acolher diferenças de diversas ordens.
Mas de que a aluna (Carol, doravante) do terceiro ano de psicologia necessitava? O que tinha de diferente em relação aos outros alunos para que sua professora fizesse a pergunta que abriu este texto?
Grande dificuldade motora global, sequela da paralisa cerebral decorrente de anóxia durante o parto, caracterizada por:
• Dificuldade na marcha;
• Dificuldade na motricidade motora fina;
• Dificuldade na articulação de alguns fonemas, sem prejuízo significativo na inteligibilidade de fala.
Mas a professora, ao perguntar se era preciso ler para ela, avaliou que estivesse diante de alguém também com alguma dificuldade cognitiva, apesar de estar no terceiro semestre de um curso de graduação.
Para a universidade em que a aluna estava matriculada, estar preparada para acolher suas diferenças era colocar sua turma em salas no andar térreo, garantindo assim sua mobilidade dentro da instituição. Perguntar se era preciso ler para ela foi uma forma sutil de dizer que não acreditava em sua capacidade de aprendizagem.
No entanto, a professora não achou que sua pergunta foi discriminatória. Ao contrário, pensou que, assim, demonstrava cuidado com a aluna, num claro exemplo do exercício da inclusão social.
Estigma e discriminação se perpetuam, em nossa sociedade, como se fossem um dado natural da humanidade. De onde isso vem?
Pensar numa sociedade inclusiva é constatar a existência prévia da exclusão. O conceito de exclusão como fenômeno social, na história recente, tem origem econômica, é fruto de períodos conturbados política e economicamente, como a grande Depressão de 1930, e está ligado inicialmente ao desemprego.
Mesmo com a recuperação econômica mundial, o conceito não desapareceu; ganhou novas facetas, advindas da alta concentração de capital e desemprego crônico. O modelo de Estado com responsabilidades mínimas, proposto na segunda metade do séc. XX, gerou um conceito de trabalho desacompanhado de direitos de cidadania e dotou a exclusão social de novos componentes: o estigma, a discriminação étnica, social. Mais recentemente, temos a discriminação em relação a sujeitos com patologias.
Práticas inclusivas para crianças, adolescentes e adultos que apresentam problemas de linguagem muitas vezes são coercitivas, e podem anular a subjetividade desses sujeitos conformando-os a um cenário pré-existente.
Vejamos o que aconteceu com a aluna do terceiro período do curso de Psicologia.
Na disciplina em que a professora ministra há trabalhos práticos a serem feitos. O primeiro deles: aplicação do WISC em crianças escolhidas pelos próprios alunos. O trabalho seria feito em duplas.
Por determinação da professora à dupla de Carol, ela ficaria, durante a aplicação do teste, na sala do espelho, para não assustar a criança.
“Como assim, assustar?” – foi o que ambas as alunas perguntaram. A professora, então, explicou falando de sua própria experiência:
“Sou gorda e algumas crianças perguntam pra mim porque sou assim tão gorda... Carol comentou que muitas crianças também já perguntaram porque ela era assim e que, ao responder, ficava tudo bem. A professora falou que ia ser difícil de ela entender, apesar de ser uma das mais inteligentes da sala.”
Todos devem ter seus direitos assegurados em relação à educação formal. No entanto, o que foi feito neste caso?
Na reunião com a coordenação, novos argumentos:
• O teste WISC precisava de coordenação motora e Carol, como parceira da dupla, precisaria de outra pessoa para ajudar e três pessoas numa sala com a criança seria demais;
• A presença de Carol poderia assustar a criança e isso traria alterações no resultado do teste.
Pela resistência de Carol à segunda justificativa, o diretor da clínica psicológica lançou um desafio à aluna: “prove-me cientificamente que você não vai provocar alteração no teste da criança”.
Provar que ela pode...
Giuseppe Pontiggia, autor do livro Nascer duas vezes, afirma que crianças que possuem sequelas neurológicas nascem duas vezes. “Tem de aprender a mover-se num mundo que o primeiro nascimento tornou mais difícil”. E o percurso é sempre atormentado.
Carol ficou mesmo na sala do espelho, sem som para acompanhar a aplicação do teste.
E a criança? Perguntou onde ela estava e por que não estava junto na sala, já que “o papo, durante o trajeto de sua casa até a faculdade, tinha sido muito gostoso.” Carol e sua mãe tinham se incumbido de buscar e levar a criança e sua mãe para o local da aplicação do teste. Houve, por certo, curiosidade em saber o que Carol tinha e por que ela era daquele jeito, mas, ao ter suas perguntas respondidas, a criança não viu o menor problema em se relacionar com ela, sugerindo-nos que o teste não traria alterações. O problema é da Carol ou dos professores da faculdade?
Na insistência de Carol em continuar sua graduação, a diretora da faculdade, numa reunião posterior, revelou:
“A faculdade está fazendo um favor de te manter como aluna regular, porque você deveria ser só ouvinte.”
Na verdade, esperavam que ela entendesse que não poderia seguir no curso de Psicologia...
O que aconteceu a profissionais competentes de uma universidade, num curso que, tradicionalmente, preza a diversidade humana?
• Desconhecimento da patologia e das necessidades da pessoa que a possui?
• Aceitação da diversidade desde que a diferença não fosse marcada pela desvantagem?
• Acolhimento da diferença até certo ponto?
Há de se considerar, então, que qualquer iniciativa de inclusão, além do conhecimento teórico do problema específico, deve passar necessariamente pelo exame do significado que a doença tem para aquele sujeito e para os que o cercam.
Vejamos alguns números que nos dão a dimensão do problema da inclusão em nosso país.
No último censo realizado, são 24,6 milhões de pessoas com alguma deficiência. Considerando que cada uma dessas pessoas tem, ao menos, pai e mãe, são quase 75 milhões de pessoas que sofrem com a exclusão social. No caso de Carol, são dois pais e três irmãos que a acompanharam na sua luta diária para se formar psicóloga.
Uma prática inclusiva deve considerar os desejos do sujeito ‘incluível’ de participação no dado contexto; deve acolhê-lo em sua maneira de ser de modo integral e, para isso, deve considerar a necessidade de mudanças desse contexto que, muitas vezes, são possíveis de serem realizadas, dependendo, apenas, de clareza sobre os mais diversos aspectos que envolvem a questão e disponibilidade interna das pessoas que dele participam para aceitar, verdadeiramente, as diferenças.
Carol mudou de universidade.
Hoje está formada, tendo terminado sua formação nesta segunda faculdade, não sem luta constante para provar que ela podia também chegar lá. Em seu quarto ano de psicologia, participando dos estágios curriculares, viveu uma situação que a ajudou a mostrar seu potencial. Por suas palavras:
“Não gosto de escolher casos para atender, pois paciente não é vitrine. Acabei por atender a mãe de uma garotinha de oito anos. Não sabia nada de nada da história dessa família. Enquanto minha colega via o prontuário, eu conversava com a família. Fomos para o quarto em que a criança estava. Ela estava sentada no colo do avô, sua mãe estava na sala com cara de alienada. Minha colega começou a fazer a entrevista, perguntando sobre os dados pessoais da garota e o porquê de estar no hospital.
Eu, calada, só observava a menina e sua mãe. Perguntei então sobre o parto, como havia sido. Quem contava tudo para mim era a mãe de outro menino que estava no mesmo quarto. O parto havia sido de fórceps, e a garotinha tinha sofrido muito no nascimento. Perguntei se ela andava, não andava, só se arrastava. O avô tocou na fralda dela e disse: está cheia: Espantei-me e perguntei: ela ainda usa fralda? Fui percebendo que aquela menina tinha um problema sério e que não estava sendo estimulada”.

Carol identificou-se com a menina. Percebeu que a garota também sofrera falta de oxigenação no cérebro durante o parto e comparou a garota a ela na mesma idade. Se ela, Carol, na idade de oito anos, já controlava esfíncteres e tinha maior controle sobre sua coordenação motora geral, por que essa menininha não? Sem desprezar o conhecimento de sua colega, viu que ali tinha mais a dizer. Perguntou sobre a dinâmica familiar, preocupou-se em dirigir-se à menina, ainda que ela não falasse nada...
Havia a indicação de que a menina fosse encaminhada a um abrigo. O porquê do encaminhamento? Carol foi certeira em sua hipótese: a garota havia sofrido abuso sexual por membros da própria família.
Seu raciocínio, por ela mesma: “Morava numa casa cheia de tios alcoólatras e era totalmente largada. Não sei como surgiu isso em minha cabeça, mas lancei uma hipótese de que essa garotinha tinha sido estuprada, o que foi confirmado pela assistente social que estava providenciando a ida da criança para um abrigo”.
Acredito que apenas Carol, naquele momento, conseguiria mesmo levantar tal hipótese. Como ela mesma diz, sem desprezar o conhecimento da colega, ali ela estava falando do lugar de quem entendia boa parte das dificuldades da menina por experiência própria. E essa experiência foi importante para todos os envolvidos: Carol, sua família, sua colega, a família da garotinha e a própria. Estas últimas ficaram muito impressionadas com Carol, tão viva, tão atuante, tão segura em suas palavras e ações, apesar dos tropeços de marcha e imprecisões articulatórias.
Que melhor mostra de esperança de vida, de igualdade, de não-discriminação da diferença todos poderiam ter?

No mesmo tema, outra interessante contribuição: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI95467-15230,00-ENTRE+OS+MUROS+DA+OUTRA+ESCOLA.html


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