22/10/2009 Jason Gomes Moderno x atrasado em uma propaganda da TV
Uma polêmica recente na televisão envolveu o lançamento de um novo modelo de sandálias Havaianas. O comercial se passa em um restaurante: a avó reclama com a neta pelo fato de a menina estar usando “chinelos”, o que seria inadequado naquele ambiente; mas a garota retruca com um lugar comum em se tratando de velhos: “Deixa de ser atrasada, né, vó?! Isso não é chinelo...”. Em seguida, entra no restaurante um ator conhecido, e a avó aconselha: “Você tinha de arranjar um rapaz assim pra você!”. Novamente, a menina discorda e responde a partir da imagem que tem de pessoas mais velhas: “Deve ser muito chato casar com alguém famoso”. A graça e a polêmica da propaganda estão na próxima fala da avó, que surpreende o espectador: “Mas quem falou em casamento, eu tô falando em sexo!”.
Como muitas pessoas se posicionaram contra a propaganda, por considerarem desrespeitosa, a empresa retirou a peça do ar disponibilizando-a apenas na internet. Mas lançou uma nova na TV, informando o fato e, como forma de provocar o preconceito dos que reclamaram, mantendo o tema em questão: o confronto entre o moderno e o atrasado, a velhice e a juventude, o passado e o presente. A senhora, com um laptop em mãos, avisa que a propaganda antiga continua acessível na internet: “Entre no site. Viu como eu sou moderninha?”
À parte o fato de a primeira propaganda ser ou não “ofensiva”, a jogada de marketing da empresa toca em um aspecto muito importante: a participação do idoso em práticas sociais atuais, no caso da segunda propaganda, a informática. É comum ouvirmos pessoas de todas as idades afirmando que a tecnologia não é para os mais velhos. Afirmações assim apenas contribuem para uma imagem distorcida da velhice, qual seja, a de que não é possível aprender, produzir, estar incluso em práticas sociais contemporâneas.
O ideal é que, no futuro próximo, além de não nos surpreendermos mais com uma simpática avó conversando sobre sexo com sua neta, também deixemos de considerar inusitado que uma senhora acesse a internet. Cada vez mais, vamos encontrar pessoas de todas as faixas etárias e grupos sociais fazendo uso das ferramentas disponíveis na sociedade e participando como atores sociais produtivos.