21 de Fevereiro de 2020


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O (bendito) choro de Maísa

LUCIA MASINI

O Ministério Público do Trabalho investiga se o SBT desrespeitou as leis trabalhistas que permitem o trabalho de menores de idade e cassou a licença de Maísa para atuar. A ação civil pública impetrada contra o SBT cita os episódios em que Maísa chora, em rede nacional, e o fato de a garota ter substituído dois outros funcionários da casa, no programa Bom dia e Cia, durante as férias da dupla.
A repercussão do choro de Maísa também atraiu os olhares de advogados que consideram que a menina foi vítima de atos que ferem o Estatuto da Criança e do Adolescente. Segundo a promotora Susana Müler, a participação da menina no programa fere o direito à liberdade e dignidade dos cidadãos em desenvolvimento. Pelo que se viu, e ainda pode ser visto nos vídeos veiculados na internet, a menina passou por situações de pânico e constrangimento, tendo de permanecer no palco, ainda que tivesse tentado correr para os braços da mãe que estava nos bastidores.
O SBT não questionou a medida. Tirou definitivamente a garota do programa, deixando-a apenas no das tardes de quarta-feira, com maior controle, a pedido do poder público, sobre sua atuação.
Muitas foram as manifestações a favor e contra todos os personagens dessa história. Há quem diga que se trata de uma farsa para alavancar ainda mais a audiência; há quem ache que Sílvio Santos é vítima da inveja alheia; há quem festeje a denúncia e, ainda, há quem diga que o choro de fome e frio de outras crianças é mais urgente de ser resolvido que o choramingo de Maísa por medo de um menino fantasiado de monstro.
De qualquer forma, os olhos de todo o país voltaram-se para a menina com preocupação só depois que ela chorou. Bendito choro. Se não fosse ele, ela estaria ainda sofrendo de uma sutil violência da qual ninguém falou ainda: a violência contra o modo de ser criança, que se realizou primordialmente pela linguagem.
Maísa é uma dessas crianças que encantam logo à primeira vista. Desde cedo canta, dança e se movimenta com desenvoltura diante de seus interlocutores, seja uma única pessoa, seja uma plateia lotada. Um prato cheio para a audiência de programas vespertinos dos finais de semana. O primeiro a reconhecer na menina uma possibilidade de boom de audiência foi Raul Gil, que a colocou em seu programa para cantar, dançar e fazer pequenas chamadas dos artistas da tarde, de quem fazia imitações ou cantava músicas consagradas. Lá sua participação era mais lúdica, sem rígidas marcações de palco ou textos. Aliás, foi sua espontaneidade no uso das palavras que fez de Maísa a parceira predileta dos apresentadores. Vejamos por quê:
Na primeira apresentação de Maísa, ainda no programa Raul Gil, quando estava com três anos de idade, deu-se o seguinte diálogo entre a menina e o apresentador. Sentado no chão, para ficar à altura de Maísa, Raul Gil lhe pergunta:
- Casada?
- Não.
- Solteira?
- Não.
- Viúva?
- Não.
- Divorciada?
- Criança...
O apresentador se mostra surpreso com a resposta da menina e põe fim ao interrogatório sobre seu estado civil, levando seu auditório a aplaudir o feito de Maísa. Quando assistimos sucessivos programas, vemos uma criança cada vez mais à vontade diante das câmeras. De posse do microfone mostra desenvoltura e tem a medida de seu desempenho na reação da plateia, que ri, diverte-se e aplaude com entusiasmo.
O sucesso a levou ao SBT. No programa dominical de Sílvio Santos, Maísa ganhou um quadro especial em que contracenava com o apresentador respondendo suas perguntas. Aqui, os produtores também se valeram da espontaneidade da menina, agora com cinco anos. No entanto, a desenvoltura vista no palco de Raul Gil foi formatada. Seus cabelos compridos e naturalmente encaracolados foram cortados acima dos ombros, e os cachos cuidadosamente arrumados. Suas roupas infantis comuns foram substituídas por engomados vestidos de menina de época. Não por mera coincidência, o público mais velho reconhecia em Maísa a figura de Shirley Temple, a garota prodígio dos anos 50. Mas, para a maioria absoluta dos telespectadores da primeira década do séc. XXI, Maísa transformou-se em uma caricatura de criança. Não foi à toa que proliferaram comentários, na internet, referindo-se à menina como anã, robô, teleguiada...
A função da garota na nova emissora manteve-se a mesma, embora com maior rigidez de marcação de palco. Neste programa dominical, Maísa tinha de conversar com o apresentador, tendo a plateia, as famosas colegas de trabalho de Sílvio Santos, como interlocutores secundários de ambos. Só isso. Só? E qual a razão de tamanho sucesso?
Vejamos um dos diálogos entre Maísa e Sílvio.

Sílvio questiona Maísa se é da boi ou do boi que se fala. Olhando para a plateia, ela diz:
- É da vaca, gente... (Sílvio ri) ó, não é verdade que vaca é mulher e touro é homem?
Sílvio fala com veemência, que chega a desconcertar a menina:
- Não, não vem me chamar de touro. Touro não é homem. Touro não é homem...
A plateia ri e Maísa, depois de um tempo, diz:
- Tanto faz, né... tem gente que tem qualquer nome... Mas touro é de homem e vaca é de mulher.
- Maísa, quer dizer que você é uma vaca?
A menina olha para Sílvio sem uma resposta imediata. Mas o modo como se coloca diante dele faz com que a plateia ria muito. Isso a deixa mais à vontade para dizer:
- Vaca? Eu sou gorda? Vaca é sua mãe, Silvio.

A mídia explorou à exaustão essa última fala de Maísa.
Ela não sabe, mas o sucesso de suas aparições na TV está fundamentalmente pautado na ambiguidade, no inusitado e, por vezes, no ridículo que suas palavras provocam, nos diálogos travados com os apresentadores.
Tanto Raul Gil quanto Sílvio Santos lançam mão de temas do universo adulto para conversar com Maísa, que não se intimida e responde sempre de seu ponto de vista infantil. Cria-se então um diálogo sem que haja um horizonte comum, isto é, o tema discutido segue lógicas particulares dos dois interlocutores: o adulto na perspectiva do adulto e a criança na perspectiva infantil. A cumplicidade e a parceria não são entre os dois interlocutores que falam, mas sim entre o adulto e a plateia, também adulta, com quem, de fato, o entrevistador constrói uma compreensão do que está sendo dito. A criança não é o destinatário das palavras proferidas pelos seus interlocutores, Raul ou Sílvio, ela é o instrumento que faz a plateia rir.
Todos nós temos, no cotidiano, centenas de exemplos de conversas entre adultos e crianças que geram estranhamentos que nos levam ao riso. A violência de que falamos no início desta reflexão não está propriamente nisso. Quando rimos do que uma criança fala geralmente explicamos, do modo como lhe é possível entender, o motivo da graça. Nosso papel, como interlocutores mais experientes nas diversas situações de comunicação, costuma ser o de esclarecer, auxiliar, sustentar, conduzir nosso interlocutor menos experiente a dominar cada vez mais os diversos modos de dizer existentes em uma comunidade. E não é preciso ser especialista em linguagem para agir assim. Cada um de nós, com sua singularidade, sabe como acolher e respeitar os modos de ser das crianças com quem convivemos. E aí aceitamos sua maneira de dizer, continuamos ou mudamos de assunto, seguimos em frente.
A violência está em persistir na fórmula do estranhamento para garantir uma audiência, sem que a criança saiba disso. Maísa, desde cedo circulando em palcos, aprendeu a reconhecer que, quando a plateia ri, gargalha ou aplaude, é sinal de que está agindo adequadamente. E é isso que a move a continuar o diálogo com seus interlocutores, ainda que outros sinais não verbais deem a um observador mais atento indícios de que ela não está entendendo o que de fato se passa naquele momento.
É o que vemos no episódio da vaca. Maísa lança mão de seu repertório infantil para falar de uma questão linguística. E sai com a óbvia e esperada explicação: vaca é mulher e touro é homem.
Mas a graça que Sílvio busca em seu programa não está nisso. Está na ambiguidade que este enunciado de Maísa pode provocar e então insiste em outros sentidos que as palavras da menina provocam. Diz que ele não é touro, é homem, e pergunta se ela é uma vaca, para divertimento da plateia. Todos contam com a persistência e resistência da garota a situações vexatórias que sempre busca mais uma resposta. Como sua medida de adequação à situação se dá pela satisfação do público, Maísa pensa estar no caminho certo e continua falando, dentro de sua lógica. Eu não sou vaca porque não sou gorda. E vaca é sua mãe, Sílvio (pois, dentro de sua lógica ela seria ainda um bezerrinho, certo?).
As palavras proferidas por Maísa ganham, nos contextos engendrados por Silvio Santos, sentidos chulos e diversos que divertem a plateia, sem que ela tenha consciência disso. Diante das câmeras, Maísa cresce trilhando um caminho ditado pelo que se espera dela. Não há espontaneidade nesses seus gestos. E, quando houve - o choro e os gritos de pânico - não teve graça nenhuma.
A violência contra sua pessoa não é comédia, faz parte de um drama que devemos evitar.


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