15 de Dezembro de 2019


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Considerações sobre a visitação a gêneros discursivos

Artigo publicado na Revista Distúrbios da Comunicação - Vol. 16 (2), 2004
Maria Laura Wey Märtz *, Lucia Masini e Claudia Perrotta

Este artigo está estruturado da seguinte forma: num primeiro momento, apresentamos uma proposta de análise de duas situações discursivas cotidianas em que a escrita está presente. Ainda que distintas, as situações têm um ponto em comum: erros ortográficos de um dos interlocutores em cada situação geraram impasse na interlocução. A partir dessa análise, discorremos sobre um aspecto do trabalho fonoaudiológico.

Vejamos cada uma das situações cotidianas.

1. E-mail enviado...ai! será que tinha algo para arrumar?!
Atualmente, a maioria dos eventos científicos e culturais produzidos pelas mais diversas instituições utiliza-se da informatização, tanto na etapa de elaboração quanto na de veiculação. Foi durante as comunicações via e-mail para a elaboração de um evento da área fonoaudiológica, cujo tema era Fonoaudiologia e Educação, que a referida situação aconteceu.
Após o envio de diversos comunicados, os profissionais que participariam das mesas de debate e palestras receberam um em que os organizadores do encontro, dois fonoaudiólogos renomados na área, faziam um pedido de divulgação do folder. O e-mail terminava com um sincero agradecemos com “ç”. Uma de nós, participante do evento, só percebeu o erro quando chegou um novo e-mail, vindo logo em seguida, com um pedido de desculpas pelo deslize da cedilha.
Trabalhando com a hipótese de que um dos organizadores tenha escrito o e-mail, e como já dissemos tratava-se de profissionais reconhecidos na área, alguém duvidaria da capacidade de ambos escreverem agradecemos corretamente? Por que não relevar, então, o deslize? Por que a necessidade da reparação tão imediata se nem ao menos o erro estava no material de divulgação e sim no próprio e-mail?
E-mails têm sido foco de estudo de diversos analistas do discurso, dadas suas peculiaridades e atualidade no âmbito da comunicação. Trata-se de um discurso realizado em condições especialíssimas de produção, na medida em que a internet, com espaço e tempo virtuais, permite a combinação de características próprias da escrita com as da oralidade. Quem utiliza sites de relacionamento, MSN entre outros recursos sabe que não se escreve propriamente nessas horas e sim conversa-se ou, para sermos mais precisas, tecla-se. Tente ser um pouco mais verborrágico nesse contexto e logo será chamado de chato e sumariamente deletado. A própria escrita de algumas palavras ganha outra forma: não é naum, é é eh, beijos é bjos, estou feliz é =) ou :- ).
O tempo da escrita na internet não é o mediato como o da escrita de um romance, de um texto acadêmico, ou mesmo de uma carta, que permite releituras, retomadas e certo distanciamento do ato da escrita. Ele é imediato, como o da oralidade, tanto que chegamos a observar, em alguns e-mails ou conversas em sites de relacionamento, internautas preferindo escrever ops, ou sorry, a apagarem o que foi escrito, quando percebem algo que precisa ser retomado.
Poderíamos dizer que está tudo errado, que isso é o fim da escrita ou algo mais catastrófico?
Acreditamos que não. Diríamos simplesmente que estamos diante de novas condições de produção e uso da linguagem que nos levam a novas formas de composição dos recursos linguísticos já conhecidos. Nossa interpretação para o deslize da cedilha é a de que o corpo do e-mail tinha mesmo o caráter da informação oral e igualmente o seu tempo de produção, sem espaço para revisões e reelaborações, que possivelmente levariam o escritor a corrigir a palavra errada. Além disso, a menos que estejamos enganadas, ainda que o sujeito da enunciação tenha sido nós (os dois organizadores do evento), o sujeito empírico, o escriba do texto, foi um só e o agradecemos foi atravessado pela força da memória visual de agradeço, este sim com “ç”.

2. Estava tudo muito claro na receita. Ela não sabe ler, resolveu inventar ou o quê?
Temos um amigo muitíssimo metódico e que possui dotes culinários realmente invejáveis! Acerta no ponto da carne, na dureza dos grãos do risoto e também dos legumes, na medida dos temperos, embora tenda a acentuar a pimenta. O que não aceita, como todo bom gourmet, são sugestões de quaisquer natureza e mesmo auxílios como picar a cebola ou a salsinha, pois apenas ele e talvez alguns poucos outros sabem como fazê-lo à perfeição.
Sendo assim, obviamente, sempre foi nosso amigo quem preparou a própria comida, o que, dada a correria de seu dia a dia, acabou por se tornar uma atividade desgastante. Decidiu então, embora contra seus princípios culinários, contratar uma empregada para também cozinhar, mas, pela entrevista inicial, desconfiou que ela não era uma expert no assunto...
Adotou então um método que julgou eficientíssimo: toda manhã, enquanto tomava café, escrevia passo a passo o que a moça deveria fazer na cozinha:
1º pegue o pote de arroz na parte de cima do armário da pia
2º meça uma medida de arroz
3º descasque meia cebola e pique-a em pequenos cubos
4º pegue a panela embaixo do armário da pia e leve-a ao fogo
5º coloque na panela uma colher de sobremesa de azeite
6º frite a cebola no azeite até ficar transparente
7º despeje o arroz na panela
8º frite por alguns minutos, mexendo sem parar
9º despeje na panela duas medidas de água
10º não mexa mais
11º tampe a panela
12º desligue o fogo quando a água secar
Tudo ia correndo bem, até que um dia pediu que a moça lhe preparasse escarola refogada:
1º abra a gaveta da geladeira, do lado esquerdo
2º pegue o maço de escarola
3º lave as folhas ....
Porém, tomado por um arroubo literário, depois do 13º item, escreveu: “E pra terminar, salzinho!”
No meio da manhã, para conferir se estava tudo certo, telefonou para casa:
- Sim, está tudo bem, já fiz o arroz, a carne, eu só não encontrei uma coisa que o senhor pediu pra colocar na escarola...
- O quê? – perguntou nosso amigo, surpreso, pois imaginava ter sido bastante claro.
- A salsinha.
- Mas que salsinha? Não vai salsinha na escarola, de onde você tirou isso? – perguntou, já um tanto revoltado com a suposta ousadia da moça, de alterar uma de suas receitas clássicas.
- Tava na receita...
- Não pode ser! Lê pra mim.
- Aqui, ó: “e pra terminar, salsinha!”
- Não, não, você leu errado: é salzinho, sal-zi-nho, com z e não com s, de sal-si-nha, ouviu?, salsinha, salzinho, se fala diferente, se escreve diferente.
- Salzinho?
- É.
E diante do silêncio um tanto constrangido da moça, esclareceu:
- Sal. Uma pitada de sal.
- Ah.
- Esquece a salsinha, ouviu?
Quando nos contou esse episódio de sua vida doméstica, nosso amigo estava indignado com o que considerou uma tremenda ignorância da moça. Como ela poderia confundir salzinho, escrito com “z”, com salsinha, escrita com “s”? “E olha que minha caligrafia é perfeita”, lembrou-nos, concluindo em seguida: “A educação neste país vai mesmo muito mal!”.
De fato, impossível não concordar com ele: a educação não anda nada bem e sua letra era impecável! Mas nossas concordâncias pararam por aí. Parabenizamo-lo pelo domínio da ortografia e do traçado da letra, ainda que na era do computador e dos corretores automáticos isso não conte muito, mas na avaliação do fato ele estava equivocadíssimo. Vejamos:
Em primeiro lugar, dado o tipo de comunicação que nosso amigo estabeleceu com sua nova funcionária, a licença poética representada no diminutivo “salzinho” não fez qualquer sentido, pois não combinou com o tom que optou em imprimir em seus textos.
Explicamos: receitas pertencem a um grupamento de gêneros de discurso caracterizado por descrever ações, em que o objetivo é o de fornecer informações ao leitor, passo a passo, de modo a possibilitar que, através delas, ele consiga realizar determinada tarefa, no caso a de preparar um alimento.
Podemos, porém, descrever uma receita de diversas maneiras; basta passarmos os olhos nas estantes das livrarias que se dedicam ao tema: há livros de receitas que, além de cumprir a função de expor procedimentos, informam sobre a origem do prato a ser preparado, ou sobre o valor nutritivo dos alimentos; há também aquelas publicações que procuram se aproximar do leitor de maneira mais afetuosa, escolhendo muitas vezes um tom lúdico ou ainda narrando tradições familiares que originaram os diferentes modos de cozinhar, comunicando que comida também é cultura... Essa diversidade é certamente exemplo do quanto é possível ser criativo dentro dos limites impostos pelas características de um gênero discursivo.
Nosso amigo optou pela estrutura composicional mais tradicional do gênero receita caracterizada pela relação inicial dos ingredientes seguida do modo bastante objetivo de preparo do alimento. Salzinho foi, como dito anteriormente, uma licença poética, uma ousadia não compreendida por sua interlocutora, que, dada a opção de nosso amigo dentro do gênero receita, jamais imaginou que ele pudesse usar de açúcar e afeto para lhe orientar na cozinha. Óbvio que uma certa ousadia é bem-vinda, o que nos leva a transgredir, transpondo características de um gênero para outro, pressupondo que nosso interlocutor irá nos acompanhar na proposta. Mas não foi o que ocorreu, talvez também porque a cozinheira de nosso amigo não tivesse tanto domínio de outros gêneros discursivos.
De qualquer forma, acostumada que estava ao estilo de seu patrão na escrita de suas receitas - uma comunicação econômica, seca, sem qualquer tempero - o esperado era ver escrito: 14º uma pitada de sal. Diante do estranhamento causado pela leitura do salzinho, procurou dentro dos seus conhecimentos lingúísticos e culinários algo que fizesse mais sentido. Eis porque leu salsinha em vez de salzinho, bastante próximos visualmente.
É interessante observar, ainda, a confusão de nosso amigo-patrão no que se refere à imagem de sua interlocutora: por vezes, em seu didatismo exemplar, desconsiderava possíveis conhecimentos da moça, como o de que em alimentos salgados usa-se sal, supondo que sua leitora era alguém desprovido de um mínimo de bom senso. Por outro lado, imaginava que ela tivesse tanto domínio da linguagem a ponto de apreender sua ousadia linguística.

A referência às situações acima, que mostram deslizes ortográficos de seus interlocutores, tem por objetivo sublinhar a importância de se compreender a linguagem como prática discursiva social e, como tal, compreender sua elaboração sem incorrer em avaliações precipitadas e até equivocadas. Não há linguagem fora de situações concretas de comunicação, assim como não há atividade humana que não seja permeada pela linguagem. Essa ideia foi profundamente trabalhada por Mikhail Bakhtin em sua teoria enunciativa, com a elaboração de vários conceitos.
Gostaríamos de destacar, visando o trabalho terapêutico fonoaudiológico, o conceito de gêneros discursivos, antes trabalhado somente com textos literários e que foi pelo autor ampliado para os mais diversos discursos, inclusive os da esfera cotidiana. Eis sua definição:
Todas as esferas da atividade humana, por mais variadas que sejam, estão sempre relacionadas com a utilização da língua. Não é de surpreender que o caráter e os modos dessa utilização sejam tão variados como as próprias esferas da atividade humana, o que não contradiz a unidade nacional de uma língua. A utilização da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, que emanam dos integrantes duma ou de outra esfera da atividade humana. O enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas, não só por seu conteúdo temático e por seu estilo verbal, ou seja, a seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais-, mas também, e sobretudo, por sua construção composicional. Esses três elementos (conteúdo temático, estilo e construção composicional) fundem-se indissoluvelmente no todo do enunciado, e todos eles são marcados pela especificidade de uma esfera de comunicação. Qualquer enunciado considerado isoladamente é, claro, individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso que denominamos gêneros do discurso (Bakhtin, 1952-53/1979, p.279) (NOTA 1).
Há, portanto, para Bakhtin, uma infinidade de gêneros discursivos na medida em que infinitas são as atividades humanas. Estamos falando de simples diálogos cotidianos, de documentos oficiais e até das mais variadas exposições científicas, sem esquecer da literatura. É o gênero discursivo, ou seja, o conjunto de enunciados mais ou menos estáveis relativos a uma esfera de atividade que nos dá a idéia de sabermos mais ou menos o que se pode esperar de uma situação. Por suas palavras, em qualquer situação social vivida.
O que é possível, plausível, esperado em determinados momentos não o é, necessariamente, em outros. Para Bakhtin, aprender a falar (e a escrever) não é adquirir um sistema de normas linguísticas invariáveis, mas sim aprender a estruturar enunciados nas mais diversas situações sociais de comunicação.
Nas situações aqui descritas, os deslizes ortográficos apareceram em contextos possíveis sim, dadas suas características, mas o que observamos foi uma intolerância aos mesmos. Ainda há um valor exacerbado atribuído à ortografia também em situações cotidianas, provocando impasses em interlocuções como as citadas.
Desnecessário o número de e-mails indignados enviados ao autor do pedido de ajuda na divulgação do evento, que acabou por constranger inutilmente o autor do texto, indiscutivelmente reconhecido como um sujeito letrado.
Desnecessária também a maneira incisiva como nosso amigo apontou o erro à sua funcionária. Isso provavelmente a tenha feito rememorar possíveis problemas vividos nos primórdios da escolaridade: a menina tímida que lutava para seguir à risca os passos impostos pela professora na promessa de que, assim, aprenderia a escrever corretamente, mas sempre acabava emperrando em algum s, ou z, ss, ç...; ou seja, entre outras, essa é uma relação de poder que se estabelece quando os aspectos normativos da escrita são privilegiados e supervalorizados. É também assim que se contribui para a perpetuação dos famigerados problemas de evasão escolar, para os distúrbios de aprendizagem, os déficits de atenção, as chamadas "dislexias", já comentados aqui no site.
Num artigo intitulado A escrita na clínica fonoaudiológica, Masini (1999) discute sobre o quanto o foco de atenção na avaliação tanto escolar como fonoaudiológica da escrita recai sobre a ortografia em detrimento de outros aspectos do texto e o quanto isso prejudica e impede que muitas pessoas e, em especial, nossos pacientes utilizem-se de seus recursos expressivos para elaborarem seus escritos. O sentimento de não saber escrever com todas as letras generaliza-se para o não saber escrever, independente do contexto em que a escrita apareça.
Embora já seja possível observar os efeitos positivos das práticas educacionais socioconstrutivistas no que se refere à apropriação criativa das leis que regem os diversos gêneros discursivos, ainda recebemos na clínica fonoaudiológica crianças, adolescentes e adultos que, diante de erros naturais, pois inerentes a esse processo de apropriação, passam a desconsiderar os seus acertos; muitas vezes, afastam-se então da escrita ou acabam mais preocupados em acertar, submetendo-se a ordens estabelecidas, do que em investir de pessoalidade seus textos, aceitando o desafio de aperfeiçoá-los à medida que forem sendo criados, lidos e relidos, pelo próprio autor e por outros interlocutores.
Torna-se, nessa medida, importante ressaltar ainda um fato da linguagem escrita: ela permanece inalterada apenas durante o tempo em que não é lida. Toda leitura atualiza o texto escrito e isso implica nas alterações que o leitor faz do texto conforme seus próprios pressupostos e necessidades no tempo-agora da leitura. Os contornos estabelecidos pelo reconhecimento de diversos gêneros não garantem uma compreensão unívoca da comunicação, mesmo a que se realiza no cotidiano. Isso porque o texto escrito guarda sempre uma abertura, um inacabamento essencial e imprevisto, porém entrevisto nas duas situações acima referidas. Contar com tal inacabamento é saber da impossibilidade de domínio do texto escrito de forma tão cabal que nenhuma alteração seja feita no trajeto percorrido pela leitura ou pelos diversos possíveis leitores. O que chama atenção, no entanto, ainda é a ênfase na ortografia, como se ela pudesse garantir um acabamento que o próprio movimento da linguagem não permite.
Não queremos dizer com isso que não há questões importantes a serem trabalhadas quanto à grafia correta das palavras, bem como com os demais aspectos normativos da escrita, mas sim que tais aspectos só podem ser tocados e trabalhados tendo em vista as necessidades expressivas de cada texto, dentro de cada proposta de elaboração escrita.
E nesse sentido, o trabalho que se propõe a transitar entre os diversos gêneros discursivos torna-se valioso para que o escritor-leitor elabore recursos para o confronto com os impasses próprios da linguagem escrita, com o que nela não é estável, apesar da norma, posto que dependente do contexto social e concreto em que se realiza:
De fato, "a forma linguística (...) sempre se apresenta aos locutores no contexto de enunciações precisas, o que implica sempre um contexto ideológico preciso. Na realidade, não são palavras o que pronunciamos ou escutamos, mas verdades ou mentiras, coisas boas ou más, importantes ou triviais, agradáveis ou desagradáveis etc. A palavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um sentido ideológico ou vivencial. É assim que compreendemos as palavras e somente reagimos àquelas que despertam em nós ressonâncias ideológicas ou concernentes à vida" (Bakhtin/Volochinov, 1929, p.81).
Ainda como salienta Bakhtin, compreender é responder ativamente. Isso ocorre na oralidade, e também na escrita:
"Compreender a enunciação de outrem significa orientar-se em relação a ela, encontrar o seu lugar adequado no contexto correspondente. A cada palavra da enunciação que estamos em processo de compreender, fazemos corresponder uma série de palavras nossas, formando uma réplica. Quanto mais numerosas e substanciais forem, mais profunda e real é a nossa compreensão" (Bakhtin/Volochinov, 1929, p.117-8).
As réplicas oferecidas aos textos escritos nas situações acima apresentadas apontam para tais conteúdos ideológicos ou vivenciais. No caso da cedilha o que toca é o valor da ortografia para apresentação e identidade do profissional, num contexto em que a falha ortográfica poderia ser associada à falha profissional se não considerássemos as falhas previsíveis proporcionadas pelo uso da internet . No caso do salzinho, o que se observa é que o conteúdo vivencial da cozinheira criou as ressonâncias necessárias para a compreensão alterada para salsinha.
Poderíamos objetar, com razão, que compreender os possíveis motivos de alterações de sentido não alteram, afinal, os equívocos aqui relatados. No entanto, o que desejamos enfatizar é que tais equívocos fazem parte dos processos de interação verbal e, ainda, que a busca dessa compreensão - a cada vez, em cada caso - é o que sustenta o processo terapêutico com a linguagem escrita.
Perrotta, Märtz & Masini (1995), em Histórias de contar e de escrever – a linguagem no cotidiano, abordam alguns dos mitos sobre a forma ideal de escrita que acabam por, muitas vezes, causar entraves na produção de textos, e a necessidade de desconstruí-los no cotidiano do trabalho fonoaudiológico.
Acreditamos que faça parte dessa desconstrução a circulação de diferentes gêneros discursivos; porém não estamos, com isso, preconizando seu ensino formal na clínica fonoaudiológica, papel reservado à escola, como defendido – corretamente – por algumas vertentes educacionais. Sugerimos aqui a visitação a diferentes gêneros.
Pode parecer antigo, mas ainda se faz necessário dizer: não é apenas retomando tarefas tipicamente acadêmicas, como resumos, dissertações, interpretações de texto, ou mesmo cópias e ditados, que possibilitaremos ao paciente da clínica fonoaudiológica que transforme a relação de sofrimento historicamente estabelecida com sua linguagem. Ao contrário, é aproximando-o de situações discursivas cotidianas em que práticas de escrita e leitura a ele significativas estejam presentes que podemos levá-lo a desconstruir suas ideias pré-concebidas acerca de seus processos de elaboração da escrita.
Muitas vezes, pacientes subestimam suas capacidades discursivas por estenderem as dificuldades que possuem em contextos bastante específicos, como o escolar, para outros do cotidiano. Desvalorizam o bilhete que escrevem ou o livro que leem, ou ainda as horas que navegam na Internet porque têm em mente um único parâmetro: o dos gêneros acadêmicos aos quais estão dolorosamente amarrados (infelizmente, vemos ainda que essa desvalorização é, por vezes, partilhada por alguns pais, professores e até especialistas da área clínico-terapêutica).
Como os interlocutores das duas situações citadas no início do artigo, alguns pacientes tendem a generalizar o certo e o errado, sem conseguir, a princípio, compreender que há variações próprias dos diferentes gêneros na composição da estrutura dos textos, no estilo e até na escolha de palavras.
Nosso papel com a visitação por diferentes gêneros é o de abrir novas possibilidades de postura diante de uma situação. Não há um único modo de se escrever ou ler um determinado texto. É necessário inicialmente compreender em que situação discursiva ele se encontra e quais os lugares dos interlocutores nessa situação.
No caso da terapia fonoaudiológica, a situação é de alguém que se encontra despontecializado em suas possibilidades de apropriação do conhecimento da escrita. Sendo assim, visitar os gêneros discursivos permite que o paciente, ao explorá-los, seja apresentado a motivações, capacidades e desejos ainda desconhecidos, podendo transformar e ressignificar sua história de sofrimento com a linguagem escrita. Essa história muitas vezes se traduz no evitar o contato com diversos tipos de texto, na escrita o mais sumária possível para não errar ou para finalizar rapidamente a tarefa, e mesmo na negação categórica de expor, por escrito, pensamentos e opiniões.
Para tanto, mais do que elaborar exercícios, o que se requer do terapeuta é uma atenção ao que o paciente produz no momento mesmo de sua produção, para que as possíveis intervenções sejam realizadas em sintonia com as necessidades e capacidades expressivas de cada um.

* Maria Laura Wey Märtz - fonoaudióloga clínica, docente do curso de Fonoaudiologia da PUC/SP, doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, co-autora do livro Histórias de contar e de escrever – a linguagem no cotidiano (Summus, 1995).


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