3 de Abril de 2020


     Fale conosco     Fale conosco
 
ProfissionalProfissional
GeralGeral
ConsultoriaConsultoria
HomeHome
BibliotecaBiblioteca
ReflexõesReflexões

Relações de poder envolvendo a surdez

Maria Cecilia de Moura e Marcus Vinicius B. Nascimento *

Uma polêmica recente envolveu o personagem Tarciso, adolescente surdo, da novela Cama de Gato. Embora o personagem faça uso de aparelho e oralidade, representantes da área médica consideram que a Rede Globo, por sua enorme influência junto à população, deveria abordar na novela a possibilidade do implante coclear. Isto não seria um problema, se não fosse a justificativa dada, qual seja, a de que a Língua de Sinais é um retrocesso na vida dos surdos.
Profissionais de fonoaudiologia, de educação e também da área médica ligados à comunidade surda posicionaram-se contra essas declarações. Leia a seguir a manifestação dos fonoaudiólogos Maria Cecilia de Moura e Marcus Vinicius B. Nascimento.

Historicamente, a surdez sempre foi vista por um viés patológico e incapacitante. As práticas da medicina sobre os corpos dos surdos são embasadas nos pressupostos de que a condição de humanidade é caracterizada pela perfeição biológica, ou seja, toda marca de imperfeição corporal deverá ser passível de “conserto”. Essa “perfeição”, baseada nos padrões da maioria, é cobrada daqueles que, por algum motivo, nascem ou adquirem alguma deficiência. A imposição da normalidade é condição para a aceitação em uma sociedade onde todos são, ou deveriam ser, “iguais”.
Essa concepção de surdez, elaborada no século XVIII, arrasta-se pela história da humanidade e ainda pode ser vista hoje na atuação da medicina, que, de todas as maneiras, cria possibilidades de restauração da deficiência auditiva, destacando os aparatos da tecnologia como fundamentais para a vida dos sujeitos Surdos (o uso da palavra deficiência aqui se refere a déficit no sentido auditivo e não ao estigma de incapacidade que essa palavra imprime naqueles que a possuem).
A surdez, a partir da concepção socioantropológica, é concebida como uma diferença. A deficiência, nesse caso, não está nos Surdos, mas na sociedade que não os aceita da maneira como são. Essa concepção teórica abraça a surdez e suas peculiaridades, como a Língua de Sinais, reconhecida pela linguística como língua natural e constitutiva de subjetividades, e a Cultura Surda, legitimada pelo multiculturalismo como maneira peculiar de os Surdos perceberem o mundo e caracterizada pela alta percepção visual que eles possuem.
Fatos atuais na mídia brasileira colocam em debate essas concepções. De um lado, a exaltação do implante coclear como recurso definitivo contra a surdez, afirmações de que a surdez incapacita e que o uso da Libras é um retrocesso. De outro, a Língua de Sinais colocada como língua natural do Surdo e a surdez, como traço de identidade e não experiência de uma falta.
A grande problemática dessa discussão parece estar na visão excludente. Por que um recurso em detrimento do outro? Em uma sociedade multicultural e plurilingüística, o acesso a duas línguas possibilita aos Surdos uma maior mobilidade social.
No Brasil, diferentemente de outros países como a Austrália e os países escandinavos, o poder médico coloca o Implante Coclear como uma “cura” que deverá banir o uso da língua de sinais. As justificativas são as de que os Sinais fariam o surdo ficar “preguiçoso” para usar os benefícios do implante coclear, que exige um treinamento intensivo para que o sujeito possa se beneficiar dos estímulos que ele receberá na cóclea. Dessa forma, o poder médico perpetua sua função reguladora da sociedade, impedindo o livre arbítrio até mesmo da escolha do uso da língua que o indivíduo deseja.
Eis aqui uma questão importante de ser pensada.
Quando, numa sociedade, algo é proibido a um grupo de indivíduos, sob a justificativa de que um grande investimento está sendo feito para transformá-lo num ser “normal”, podemos falar de manipulação e de eugenia. Podemos falar de raças puras que se comportam todas da mesma forma, usam a mesma língua e defendem os mesmos princípios culturais. A diversidade é banida e a homogeneidade, almejada a qualquer custo, para que o cidadão não precise se preocupar em lidar com as diferenças. Mas isso é uma grande violência psíquica, um abuso contra o indivíduo que vê retirada a sua possibilidade de se organizar, de se compor e de se expressar da forma que desejar.
Neste momento, surge sempre a dúvida: E se não dermos à criança surda o direito de se expressar pela língua oral? Pois que esse direito seja dado, mas seja dado em conjunto com a liberdade de poder usar a língua de sinais. Lutemos para que ela possa desenvolver ambas e possa, a partir de suas necessidades e desejos, estar no mundo da forma que escolher.
Retiremos do surdo a incapacidade que lhe é atribuída há tanto tempo e permitamos que ele possa traçar seus caminhos. Como? Possibilitando a fala como escolha e não como imposição. Possibilitando que ele possa ser o que é: surdo, sinalizador e falante, com o direito de opção.
Que os poderes médico, político e econômico, apoiados pela força da mídia televisiva e jornalística (que, por sua vez, é governada pelas forças políticas e econômicas também), percebam sua tirania e permitam que possamos ver o surdo como cidadão e não como um deficiente/incapacitado a ser consertado. Quando a liberdade é retirada, o abuso se estabelece. Se as bocas são caladas, pouco poderá ser feito.
Consideramos que o Implante Coclear é uma escolha do indivíduo e da família, mas que o Surdo deve poder conviver com a língua de sinais, pois uma forma não retira a possibilidade do desenvolvimento das habilidades da outra, como bem mostram diversos trabalhos na Austrália e na Escandinávia.
Aprendamos com aqueles que sabem conviver com as diferenças, que respeitam a diversidade e que colocam a tecnologia médica a serviço de uma melhor condição de vida para o Surdo, e não como um impedimento para sua outra forma de estar no mundo: como Surdo, pertencente a um grupo minoritário, mas que tem direitos como qualquer cidadão, sendo o maior deles o de não ser violentado na escolha da língua que deseja usar.

*Profa. Dra. Maria Cecilia de Moura, docente no curso de Fonoaudiologia da FCHS/PUC-SP
Marcus Vinicius B. Nascimento, acadêmico do 4º ano de Fonoaudiologia da PUC SP e tradutor intérprete de LIBRAS/Português.


Voltar

Compartilhe: