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18/03/2010 Lucia Masini e Claudia Perrotta Sem graça nenhuma
Em 13 de março, as tirinhas e charges brasileiras calaram-se em homenagem ao cartunista Glauco, assassinado junto com seu filho Raoni, em sua residência, na madrugada do dia anterior.
Dono de um traço simples e de humor popular e anárquico, Glauco retratava em suas tirinhas as mazelas das pessoas comuns e de quem tem uma vida sem muitos objetivos e cheia de pirações. Geraldão, nome derivado de geral, seu personagem mais famoso, passava o dia nu, em uma busca frenética por estimulação – comida, bebida, sexo, drogas – além de, passado dos 30, ainda morar com a mãe. A versão infantil desse personagem não foge à regra: Geraldinho já nasce querendo ver TV, sempre com pressa, odeia escola e adora guloseimas – caricatura de muitas das crianças de nossa época.
Não há como não observar, como alguns comentaristas, a semelhança entre o assassino de Glauco e o personagem que criou, Geraldão. No entanto, outro aspecto nos chama mais a atenção.
A relação entre os personagens nas tiras evidencia a pouca percepção que um tem do outro, a desconsideração pelo alheio, importando mesmo o desejo e as loucuras individuais. Uma relação desprovida de ternura e carregada na erotização desmedida.
No entanto, a relação das tiras com o leitor era afetiva e buscava chamar a atenção justamente para essa ausência do olhar para o outro. O Casal Neuras parece ser o ápice dessa denúncia: ali, o movimento de um nunca levava o outro para a mesma direção.
Se continuarmos na tese de que o assassino confesso não é a encarnação de Jesus Cristo e sim de Geraldão, devemos então complementar dizendo que sua família e pessoas ligadas ao seu cotidiano também carregam semelhanças com o espírito dos personagens de Glauco. Isso porque parecem ter resistido a olhar o que a realidade lhes mostrava: um jovem que certamente sinalizou de diversos modos a necessidade de ajuda especializada - abuso de drogas, desinteresse por uma vida produtiva e tendência ao fanatismo religioso como salvação para sua existência.
O resultado disso também se assemelhou ao fim de muitas das tirinhas do cartunista: um ato de violência inesperado. Só que, aqui, irreversível.
Glauco não estará presente em outros eventos. Em seu lugar, seu desenho inconfundível.
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