4 de Setembro de 2010


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Sobre Donald Woods Winnicott

Claudia Perrota

Nascido em 1896, na Inglaterra, D. W. Winnicott formou-se pediatra em 1920, atuando por 40 anos em um Hospital Infantil londrino. Em 1927, iniciou sua formação em Psicanálise, e durante a Segunda Guerra Mundial, em 1939, atendeu crianças que haviam sido evacuadas de Londres e separadas de suas famílias, experiência que teve grande importância em seu estudo sobre o amadurecimento humano e o papel da mãe na constituição da pessoa.
O autor tinha como preocupação divulgar sua experiência clínica não só no âmbito acadêmico, mas também em vários meios de comunicação, privilegiando a interlocução com os profissionais da área da saúde, com os mais diversos cuidadores (assistentes sociais, religiosos, educadores) e em especial com as próprias mães - momento este que lhe dava mais prazer, pois com elas conversava sobre aquilo que sabiam fazer melhor do que qualquer outra pessoa: cuidar dos seus bebês com devoção, quando eles eram totalmente dependentes destes cuidados. Winnicott sempre advertia que as mães não devem aprender através de livros ou com especialistas a fazer aquilo que lhes é natural. Assim, aconselhava os profissionais a fortalecer a confiança delas em si mesmas e em sua capacidade de perceber e sentir o seu bebê, evitando interferir desnecessariamente.
Para Winnicott, nos estágios iniciais do desenvolvimento da criança a dependência é tão grande que o comportamento daqueles que representam o meio ambiente não pode ser ignorado. E nisto reside sua grande contribuição à história da Psicanálise. O autor abriu um vasto campo de pesquisa e investigação sobre esse papel constitutivo do ambiente, destacando três funções a serem exercidas pela mãe suficientemente boa: holding, handling e apresentação de objeto.
Em todas elas, com sua sensibilidade aumentada, que favorece a adaptação ativa, essa mãe entra em sintonia com seu filho, sendo capaz de lhe fornecer o que necessita no momento em que necessita, captando e decifrando mensagens extra-verbais, como gestos, sorrisos, gritos, gemidos, sonolência, excitabilidade. Trata-se de uma comunicação silenciosa (toque, cheiro, calor, voz...) que ocorre quando o bebê ainda não tem conhecimento de dentro e fora; ou seja, ele é a mãe-ambiente, constitui-se como uma unidade com esse ambiente e, embora sem ter consciência, é afetado pelos cuidados que lhe são dedicados.
Em síntese: segundo a Teoria do Desenvolvimento Emocional Primitivo, o bebê necessita do apoio do ambiente, representado pelos cuidados maternos, para desenvolver suas potencialidades. Caso ocorram falhas nesses cuidados, isso pode dificultar a conquista da integração, da vivência de continuidade dos processos psíquicos e fisiológicos, base para o sentimento de ser, do verdadeiro self.

Mas quais seriam os desdobramentos dessa teoria no contexto terapêutico?

Inúmeros! Por essa razão, Winnicott é bastante estudado, não só por psicanalistas, mas também no âmbito da Fonoaudiologia. O autor faz uma importante analogia entre as funções de uma mãe-ambiente e de um terapeuta suficientemente bom, que deve, em alguns momentos, reproduzir os cuidados de maternagem, de modo a atender às necessidades do paciente.


Transição entre duas realidades: o brincar


Para compreendermos o status que o autor atribui ao brincar, como algo que nos constitui como pessoas, é preciso voltar ao início. Destacamos então o conceito de mãe suficientemente boa. Sendo devotada nos cuidados, constante, estando presente nos momentos de quietude e de inquietude, comunicando-se com o bebê silenciosamente ou atendendo às necessidades dele no momento mesmo em que surgem, sem antecipá-las, sem intrusões ou negligências, essa mãe abre campo para a constituição do verdadeiro self. Ou seja, para o viver de modo criativo, com possibilidades de realização e de desenvolver potenciais de forma plena.
Para alcançar essa existência criativa, é preciso que, nesses primórdios da vida, o bebê tenha experimentado, então, o que Winnicott denomina onipotência primária. Trata-se de um estado fundamental para a constituição da pessoa e que remete ao conceito de ilusão.
Novamente aqui lembramos que ilusão, para o autor, ganha outro sentido, diferente daquele a que estamos habituados – não se trata de engano, de percepção deformada! Em um gesto criativo, Winnicott rompe com o senso comum e nos apresenta outro ponto de vista, uma outra ilusão.
Para ele, em certo momento, precisamos acreditar que criamos o mundo a partir de nossas inquietações: o seio que nos alimenta, os braços que nos sustentam com devoção, reunindo as partes de nosso corpo, de modo a integrá-lo, o olhar que nos reconhece... Vivemos, assim, a ilusão de que criamos os objetos de que necessitamos, e que, graças à devoção da mãe, aparecem no momento exato de nossa necessidade. Ou seja: a necessidade leva ao gesto criativo! (Safra, 2008, informação verbal)
Essa experiência de ilusão, saudável e fundamental para a constituição do si-mesmo, sendo repetida no tempo e no espaço, nos prepara para as outras tarefas que virão, como a de descobrir, aos poucos, que o mundo, os objetos já estavam lá antes de nosso nascimento.
É a mãe suficientemente boa que, no início, se coloca de forma devotada, oferecendo o que seu bebê necessita no momento exato em que necessita, permitindo o fenômeno da ilusão, que vai então apresentando as coisas do mundo em pequenas doses, de acordo com a condição particular e própria de cada um de compreender a realidade compartilhada com os outros. Em sintonia com o ritmo de seu bebê – algo que no início ocorre no registro corporal – essa mãe vai regulando sua presença na vida dele: quando a dependência é absoluta, ela se faz mais presente, e com o tempo, vai se ausentando em alguns momentos, sempre de acordo com a suportabilidade do bebê, para que ele possa caminhar para a dependência relativa rumo à independência, que, na verdade, nunca chega a acontecer. Ou seja, somos sempre dependentes de outros, precários; e como seres inacabados, necessitamos tanto da presença do outro como de nos inventar continuamente (Safra, 2008, informação verbal).
Então, saímos da dependência absoluta, em que a ilusão tem lugar entre mãe e bebê, e caminhamos para a dependência relativa. Neste momento, o que estaria entre mãe e bebê? Como o brincar entraria nessa equação?
Aqui entram outros conceitos. Segundo Winnicott (1975), desde o nascimento o ser humano está envolvido com o problema da relação entre a objetividade e a subjetividade. A formulação habitual é de que todo indivíduo que chega ao estágio de ser uma unidade, com uma membrana limitadora e um exterior e um interior, constitui uma realidade interna – rica ou pobre/em paz ou em guerra. Para o autor, porém, há também uma terceira parte, que seria a área intermediária de experimentação, para a qual contribuem tanto o mundo interno como o externo; é nessa área que o brincar acontece.
Trata-se de um lugar entre, lugar de repouso para o indivíduo empenhado na perpétua tarefa de manter os dois mundos separados. Seria, pois, um estado intermediário que surge entre o momento de dependência absoluta da mãe, em que o bebê não distingue dentro e fora, eu e não-eu (o bebê é a mãe; e a mãe é o bebê), e o momento em que começa a se tornar em condições de reconhecer e aceitar aspectos da realidade que compartilha com os outros – dependência relativa.
Como vimos, sendo a mãe suficientemente boa, o bebê pode nela confiar. E essa confiança cria um playground intermediário (Winnicott, op. cit.) – trata-se de um espaço potencial entre a mãe e o bebê, ou que une a ambos, sendo algo que está em contraste tanto com o mundo interno como com o externo; é um paradoxo que não deve ser solucionado e sim aceito.
Surge aqui, então, o que o autor denomina objeto transicional. Sempre recorte de uma materialidade, esse objeto localiza-se nessa área intermediária e indica uma transição do bebê de um estado em que está fundido com a mãe (ilusão) para um estado em que está em relação com ela como algo externo e separado – é a primeira posse não-eu. Ou seja, a ilusão dá lugar ao objeto transicional.
Um exemplo clássico é o paninho que as crianças pequenas costumam trazer consigo – algo da materialidade que é destacado por elas e ganha outro uso – não faz parte do corpo do bebê, lembra algo da mãe, da pele, da maciez, do cheiro, do conforto, da temperatura corporal, sobrevive à agressividade, mas não é a mãe. Porém, não é reconhecido como pertencente totalmente ao mundo exterior, pois o bebê tem sobre ele controle mágico.
Então, iniciamos nossa existência com algo que sempre será importante: uma área de experiência que não será contestada. Tanto que, no geral, os pais aceitam que o paninho seja levado nas viagens da família, por exemplo, ou que permaneça sujo, pois lavá-lo pode levar a uma destruição do valor desse objeto.
Em síntese: os objetos transicionais pertencem à área intermediária de experiência; fazem e não fazem parte do corpo do bebê e embora ainda não sejam reconhecidos como pertencentes ao mundo externo, ainda estão sob controle mágico, mas também já se encontram fora de seu controle – como a mãe, que vai sendo reconhecida pelo bebê como alguém com vontades próprias, com necessidades.
Na infância essa área intermediária é necessária para o início de um relacionamento entre a criança e o mundo. Trata-se de viver experiências nesse espaço potencial – possibilidade de estar situado no mundo de modo que o objetivo e o subjetivo possam coexistir.
Mas e depois? Simplesmente paramos de brincar? Como tudo isso se configura nos outros momentos do processo de amadurecimento pessoal? Afirma Winnicott que tudo o que é permitido ao bebê é conservado na experimentação intensa que diz respeito aos objetos culturais, às artes, à religião, ao viver imaginativo e ao trabalho científico criador.


Referências bibliográficas

D.W.Winnicott (1975). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago.

_____________(1990). Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago.

_____________(2000). Da Pediatria à Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago.

_____________(2005).O Gesto Espontâneo. São Paulo: Martins Fontes.


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